Flavio Aguiar, de Berlim
Um tema das
revoltas de 1968 na Alemanha foi a pergunta: 'o que fizeram durante o nazismo?'
No Brasil em breve perguntaremos 'onde você estava em 2016?'.
Claro
está que nem a Alemanha de 1933, nem a Itália de 1922, nem o Portugal
salazarista ou a Espanha franquista se equiparam ao Brasil de 2016. Mas se
pensarmos nas estruturas do que está acontecendo, sim, se equiparam, por
analogia, no que toca às dinâmicas psíquicas em jogo.
No
Brasil de hoje domina a desfaçatez escancarada dos golpistas "de
cima": Parlamento apalermado, dominado por uma quadrilha de rufiões,
liderada por um psicopata, Executivo nas mãos agora de um "sabonete",
como a gente dizia, e seboso, ainda por cima; um Judiciário ocupado por ousados
violadores de qualquer lei ou timoratos defensores das próprias rotas togas,
não mais que isto; promotores públicos que exercem a magistratura impunemente
em proveito próprio e em defesa de privilégios políticos, como os coronéis de
54 e os generais de 64; delegados e policiais federais que exercem o poder do
distintivo para intimidar os "conduzidos coercitivamente"; a mídia
marrom, que se intitula "grande", como sempre insuflando nos seus
leitores, apesar de serem cada vez menos, o ódio, o preconceito, a mentira,
baseada na ideia de que se a mentira é suficientemente repetida ela vira
verdade e, se não engana o tempo todo, engana por tempo suficiente para
patrocinar os golpes que ela deseja – brancos ou sanguinários.
Não
é isso que cola os anos de hoje no Brasil à Alemanha de 1933 e anos seguintes.
Pode até aproximar. O que cola, mesmo, são os processos que isso recolhe e
deflagra. Inclusive os psíquicos.
A
prática disseminada na Operação Lava Jato e seus vazamentos alta e baixamente
seletivos para a mídia galopeira do golpe, das "delações premiadas",
induziu fortemente uma prática disseminada entre a direita sequiosa de ter
motivos para se livrar das políticas de favorecimento do povo e da afirmação da
soberania popular e nacional: as "agressões premiadas".
Direitistas
de todos os matizes, estimulados por jornalistas criminosos, passaram a
estigmatizar o que viam como "objetos de descarrego": a cor vermelha,
os petistas, os que criticam a ditadura de 64, de repente comodamente reunidos
debaixo do rótulo: "corruptos".
Mais ou menos como se fazia com as bruxas de antanho ou os judeus de
menos antigamente.
O
raciocínio é mais ou menos assim: a mídia diz que alguns petistas foram
corruptos; então, todo o petista é corrupto e todo o corrupto é petista; se não
é, não interessa, porque nós precisamos construir um bode expiatório visível,
porque a corrupção é algo mais difícil de combater do que os petistas, que a
gente pode cercar na rua, bater neles, insulta-los, a partir da cor vermelha,
ou de seu retrato.
E
a gente pode fazer tudo com eles: se recusar a atender seus filhos, se formos
médicos, insulta-los nas ruas, bater nos seus cachorros, expulsá-los de hospitais,
de restaurantes, etc. Por que essa agressão é "premiada"? Porque ela
é impune. Com "eles", você pode fazer o que quiser, nada vai
acontecer.
Pode
extravasar, pode liberar seu ódio, seus preconceitos, tudo. Substitua as
palavras "petista", "esquerdista" etc., por
"judeu", "cigano", "homossexual",
"social-democrata", "liberal" "comunista" etc. –
a estrutura é a mesma. Só que hoje, como na Alemanha de 1933, ninguém está
pensando no etc. Vamos a isso.
Há
um romance que deveria ser lido nestes momentos. Infelizmente, não há tradução
para o português que eu conheça. Em alemão, ele se chama Jeder starbt für sich
allein, que pode ser traduzido mais ou menos por "Cada um morre sozinho e
por si", e é de um autor chamado Hans Fallada, pseudônimo de Rudolf
Wilhelm Friedrich Ditzen (1893-1947). O autor teve outro romance traduzido,
grande sucesso nas décadas de 1930 e 1940, Kleiner Mann - was nun?, que Erico
Verissimo, o tradutor, converteu em E agora, seu moço?, em 1937, e que agora
tem uma nova edição, E agora, Zé Ninguém?
Aquele
romance ganhou dois nomes em diferentes versões para o inglês: Alone in Berlin
e Every Man Dies Alone. É baseado na história real de um casal que, durante a
Segunda Guerra, se dedicou a escrever cartões postais antinazistas e a distribuí-los
por prédios e ruas de Berlim, meio ao acaso.
Não
eram militantes políticos. O que aconteceu a eles foi o trauma provocado pela
morte do irmão da mulher no front de batalha. Escreviam, sobretudo, que Hitler
mentia, o regime era opressivo, o nazismo era insuportável. Foram pegos,
condenados à morte, executados. Depois da guerra, Fallada recebeu os informes
sobre o caso e escreveu o romance em 24 dias, antes de morrer de causas
naturais.
No
romance, o casal original (Otto e Elise Hampfel) se torna Otto e Anne Quangel,
e o morto passa a ser seu filho. Ao seu lado, enfrentamos o mundo nazista,
feito tanto da operística e bufa tragicidade de seus líderes (no Brasil de hoje
diríamos, comicidade trágica) quanto da pequena mesquinhez das injustiças cotidianas:
as denúncias, as agressões contra judeus, a soberba dos que acham donos do
espaço, e assim por diante, tudo disfarçado ou pintado com as cores de se
acreditar na "limpeza da pátria", mais ou menos como hoje.
Um
detalhe importante é que os cartões do casal são, na verdade, inócuos. Deixados
em prédios privados ou públicos, escritórios, repartições, são entregues à
Gestapo assim que descobertos. Motivo: quem os descobre entra em pânico, pela
simples posse deles, e os "descarrega" de imediato para a polícia
política. Não basta, por exemplo, destruí-los: é preciso dar mostra de
"bom comportamento". Graças ao que já se chamou de "medo
ininterrupto".
Mas
tem mais. O título do romance só se explicita ao se considerar que, ao lado do
casal Quangel, o outro protagonista é o policial da Gestapo encarregado de
elucidar o caso: o comissário Escherich, um investigador civil que foi parar na
Geheime Staatspolizei, mais conhecida por aquela sigla. Até mesmo o número de
páginas da edição alemã é equânime: 50% dedicadas ao casal e seu mundo, e 50%
ao comissário.
Escherich
é um policial metódico. Quer descobrir os autores do "crime" através
do método e da investigação sistemática. Mas os seus chefes não. Querem ação,
resultados imediatos, pancadaria eventualmente. Isso cria muitas tensões para
ele. Diga-se de passagem, que ele não tem a menor simpatia pelos criminosos que
investiga. E tem simpatia por sua função, seu método, seu caráter de policial
"correto". Despreza a tortura, como "ineficaz". Mas termina
até se valendo dela, não para obter informações, mas para satisfazer os chefes
e continuar no caso.
Com
tal personagem, Fallada constrói uma fina paródia de um romance policial. O
detetive é, na verdade, o criminoso, o agente do crime que vai ser cometido. Os
supostos "criminosos" são, na verdade, as vítimas, e o que vamos
assistir é um "assassinato judicial", perfeitamente dentro da lei, da
ordem e dos bons costumes.
Mais
ou menos o que está acontecendo hoje no Brasil com a presidenta. A inocente vai
para a fogueira, estilo Joana D’Arc (capa do Estadão, que acho que nem se deu
conta da canonização que promoveu), a bandidagem é que a condena
"legalmente". Além disto, o casal é que é descrito, naquele mundo,
como "anormal", "psicótico", "ameaçador",
desequilibrado, por desafiar os poderes vigentes ou por denegar seus ditames.
Há
ainda algo mais profundo, que vemos no destino do policial, ao lado dos
protagonistas da rebeldia. Para executar suas funções, ele precisa construir
uma carapaça extremamente rígida que o proteja da realidade. No seu caso, isso
nem se transforma em ódio, mas em desprezo em relação a seus objetos, os
investigados. Ele precisa construir uma negação sistemática da realidade,
chamar de crime o que não é crime, chamar de loucura o que é razão, chamar de
nada o que é tudo, a humanidade dos supostos "criminosos".
Algo
parecido acontece hoje com os que negam a existência de um golpe. Esgrimem uma
má-fé que vai terminar por engoli-los. Uma parte vai esgrimir essa má-fé até o
fim da vida, inutilizando sua capacidade de pensar, mais ou menos como acontece
com os hoje "saudosos de 64". Outra parte vai cair na ressaca, quando
as tragédias começarem a ser vomitadas nas suas portas, inutilizando seu
pensamento também por longo tempo. Qual será o percentual de ambas as partes?
Impossível saber.
Escherich
confronta seu destino em dois capítulos. No primeiro, é brutalizado por seus
superiores por sua "ineficiência". Apanha, rola escada abaixo,
sangra. Para continuar no caso, desce mais um degrau na escala humana,
denunciando um inocente como culpado, só para se manter no caso, que quer
elucidar.
No
segundo, que é o verdadeiramente demolidor, confronta-se com o verdadeiro
"culpado", Otto Quangel. O reconhecimento do quanto Quangel (que está
longe de ser um herói, é muito mais um anti-herói) manteve sua humanidade
intacta é insuportável para ele, e a constatação de que toda a negação que
construiu em relação à realidade externa terminou por atingir sua realidade
interna, corroendo-a e destruindo-a. E ele se mata. Seus superiores o
consideram um mero "desertor".
Claro:
trata-se de um romance. O policial real, que investigou o caso e descobriu o
casal, chamado Püschel, sobreviveu à guerra, mas depois dela desapareceu.
Confinou-se a um anonimato. O que pode ter sido uma condenação pior do que o
destino de Escherich, como personagem.
Um
outro aspecto a considerar está naquilo que chamei de "assassinato
judicial". Era o método nazista, de Roland Freisler, mas não só. Era
também o do estalinista Andrei Vychinsky, e o de Joseph McCarthy. Consiste em
fazer uma usurpação de papeis, em que o "camisa nera" de Curitiba, os
promotores do Ministério Público, o Procurador Geral da República e até mesmo a
PF se tornaram mestres, senão doutores. Assim: o juiz passa a ser promotor
também; o promotor passa a ser juiz; o Procurador passa a ser tudo isto junto,
e os policiais mais ainda. O parlamentar passa a ser carrasco antes do
julgamento.
A
partir daí qualquer um em mesa de restaurante, saguão de hospital ou meio da
rua se arvora a ser tudo também, juiz, policial, promotor, júri, tudo. E se dá
o direito de vaiar, expulsar, bater… ou prender.
Querem
ver?
Examinemos
o comportamento do comandante da TAM que ontem (10) foi confrontado por
manifestantes antigolpe de um lado, e uma reclamação por parte de dois
deputados golpistas no voo, de outro. Que fez ele? Liberou os deputados e
deteve as manifestantes até a chegada da PF, que as re-deteve por mais uma
hora. Ou seja, ele julgou o caso, e deu sentença. Libertou as
"vítimas", na verdade os culpados, deteve as "infratoras",
na verdade as vítimas de um estupro legal de seus direitos.
Em
conjunto, esse processo de negação da realidade se volta primeiro para fora.
Nega a realidade e a humanidade do outro. Mas ele tem um preço para dentro, que
termina por ser cobrado. O psicopata clássico é o que volta ao local do crime
porque acha que não foi ele que cometeu o crime ou que o que fez não foi um
crime, embora dentro dele bruxuleie uma culpa que o arrasta à autocondenação.
Este
psicopata político do século 21 brasileiro está assassinando o país que lhe deu
berço e não vai ter para onde voltar. Não sei qual destino antever, se o de
Escherich ou o de Püschel. Que nenhum deles lhe seja leve.
Aqui
na Alemanha houve muitos Püschel. Tanto que um dos temas das revoltas de 1968
foi a pergunta: "Papai, mamãe, vovô, vovó, tio, tia, onde estavam e o que
fizeram durante o nazismo?" Uma capa de silêncio envolvia tudo.
Da
mesma forma haverá a pergunta: onde vocês estavam em 2016? E ela vai vir muito
mais rápido. Talvez no ano que vem.
Créditos
da foto: Mídia Ninja
Fonte:
cartamaior

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