Governo
e mídia já armam discurso para investir contra direitos sociais, serviços
públicos e estatais. Dirão que “país quebrou” e “é hora de sacrifícios”.
Enfrentar esta narrativa será essencial, nos próximos meses
Por
Felipe Amin Filomeno
Dilma
não morreu, mas sua herança já está sendo discutida. No dia 12 de Abril, a
Folha de São Paulo publicou um editorial em que afirma que “erros da petista
[presidente Dilma] em diversos setores deixarão uma herança de destruição
incomparável”. Este editorial marcou o início daquela que será a grande
narrativa da direita midiática e partidária no Brasil pós-Dilma (e de Temer,
agora como presidente em exercício): a crise persistente é o resultado
prolongado dos abusos e erros cometidos pelo PT em seus vários anos de governo
federal. O PT, é verdade, também utilizou estratégia retórica semelhante em
seus primeiros anos de governo, atribuindo certas dificuldades enfrentadas
então à “herança maldita” de FHC. Em ambos os casos, é uma estratégia retórica
reducionista que atribui todos os problemas presentes ao governo passado e
todas as benesses presentes ao governo atual. No entanto, a narrativa emergente
sobre a “herança maldita” de Dilma é ainda mais reducionista e viesada do que
foi a narrativa sobre a “herança maldita” de FHC.
Em
primeiro lugar, a narrativa da “herança maldita” de Dilma sofre de uma mácula
fundamental, que é seu propósito de “blindar” o governo ilegítimo que emerge do
processo de impeachment. Ilegítimo por várias razões: (1) pela fragilidade
jurídica da tese de que “pedalada fiscal” é crime de responsabilidade, (2) por
Temer ter ele mesmo assinado decretos de “pedaladas fiscais”, (3) por
Anastasia, relator do impeachment no Senado, ter ele mesmo cometido “pedaladas”
enquanto governador de Minas Gerais, (4) por vários réus em casos de corrupção
terem integrado as comissões do impeachment, (5) por vários congressistas terem
declarado seu voto sobre o impeachment antes mesmo da apresentação da defesa de
Dilma (demonstrando a falta de seriedade deste julgamento político), (6) pelos
desvios do devido processo legal que têm ocorrido na Lava-Jato com o objetivo
de debilitar figuras do PT, (7) pelo viés partidário de setores da mídia, do
MP, da PF e do Judiciário a favor do PSDB etc.
Por
um lado, o governo Temer contará com uma governabilidade mínima garantida pelo
presidencialismo de coalizão, pois haverá uma maioria congressista aliada ao novo
governo e setores chave da sociedade civil e do empresariado darão seu apoio.
Por outro lado, o PT se (re)converterá em oposição agressiva e a parcela
substancial da população que tem ido às ruas em defesa da democracia continuará
a se mobilizar contra o novo governo. Estarão acompanhados de intelectuais e
artistas eminentes e de movimentos sociais progressistas, como o MTST e o MST.
Além disso, Temer tem altos índices de rejeição na opinião pública e é nome
citado em investigações (ainda que, dada a partidarização de setores da PF, do
MP e dos tribunais, é plausível que nada aconteça a ele do ponto de vista
judicial). Mais importante, a crise econômica persistirá, agravada pelas
próprias políticas neoliberais que o governo Temer planeja reforçar. Políticas
que foram derrotadas na eleição de 2014, mas que retornaram na forma de
“estelionato eleitoral” de Dilma. Tudo isto tornará necessária a insistência,
da parte das forças conservadoras, na narrativa da “herança maldita” do PT.
Em
segundo lugar, a narrativa da “herança maldita” de Dilma ignora
(propositalmente) que vários dos supostos “erros” de Dilma se deveram a
obstruções colocadas diante dela por certos blocos congressistas e ao próprio
clima de caos fomentado (propositalmente) pela grande mídia (incluindo a Folha
de São Paulo, que há vários meses devota suas manchetes exclusivamente ao
suposto “governo sitiado”, como se mais nada estivesse acontecendo no Brasil ou
no mundo). Além disso, parte da “herança maldita” de Dilma é resultado de sua
adoção de uma política econômica conservadora, neoliberal, que, no final, nem
serviu ao propósito político que tinha: recuperar a governabilidade depois de
uma eleição presidencial disputada e da eleição de um congresso mais
conservador em 2014. Veja, por exemplo, o impacto negativo do aumento dos juros
nas contas públicas e o desemprego crescente no Brasil. Não são, portanto,
puramente erros de Dilma.
Em
terceiro lugar, a narrativa da “herança maldita” do PT ignora (propositalmente)
os diversos avanços ocorridos sob os governos de Lula e Dilma: a ampliação
substancial do ensino público superior (e do acesso a ele por segmentos
marginalizados da população), a redução da fome e da pobreza, a diminuição da
desigualdade social, a transposição do São Francisco, a inauguração de Belo
Monte etc. O PT, é verdade, enfatizava a herança maldita de FHC, ao passo que
negligenciava certos avanços obtidos sob o governo do PSDB, como a estabilidade
econômica. Com isso, não quero dizer que os governos do PSDB e do PT foram
equivalentes, ambos tendo um legado ambíguo de conquistas e problemas, quero
apenas apontar as falácias contidas em tais narrativas reducionistas.
A
narrativa da “herança maldita” de Dilma será a principal arma ideológica do
governo ilegítimo que emerge do processo de impeachment. A persistência da
crise econômica e o modelo de política econômica do governo Temer tornarão esta
narrativa politicamente necessária. A grande/velha mídia, como se vê, já está
articulando esta narrativa, na sua função social de aparato ideológico dos
grupos dominantes. Esta narrativa terá grande ressonância nos setores
conservadores da classe média (os verde-amarelos da Av. Paulista), pois é um
complemento a sua moralidade seletiva (que vai às ruas para protestar contra
Lula, mas fica em casa “fingindo que não vê” o cartel do metrô e a máfia da
merenda). A moral seletiva da classe média conservadora reproduzirá
cotidianamente a narrativa de que todos os problemas de 2016 e 2017 são “culpa
do PT”. Que fique aqui, já de ante-mão, a desmistificação deste discurso
ideológico.
Fonte:
outraspalavras

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