Do brasil247
A mídia, o golpe e a pseudoguerra do bem versus o
mal
ROBSON
SÁVIO REIS SOUZA
Doutor
em Ciências Sociais e professor da PUC Minas.
À
medida que o poderio econômico foi dominando a mídia, muitos
"profissionais da pena" foram se subjugando aos interesses patronais
e outros se transformando em animadores de auditório. Parte do jornalismo, ator
político relevante na formação da "opinião pública", tem se
contentado com o apequenado papel de ventríloquo.
Presenciamos
no Brasil uma incestuosa relação no universo da comunicação de massa: de uma
maneira geral, o jornalismo domado às conveniências do grande capital sucumbe
aos ditames dos donos dos oligopólios empresariais e midiáticos que determinam
o que deve ser pautado, como, quando, de qual forma, com qual recorte e viés,
assim como o que deve ser publicado (melhor dizendo, publicizado — dado que a
produção da notícia se transformou ora em mercadoria, ora em produto de
entretenimento). Assim, o jornalismo dos grandes veículos de comunicação
decompõe-se em espetáculo, muitas vezes grotesco, a ser vendido de forma
sensacionalista, eivado de interesses de classe, para o deleite do
telespectador-consumidor desavisado.
Numa
afronta colossal ao direito humano à comunicação, as grandes redes de mídia e
as poderosas agências noticiosas escolhem, selecionam, manipulam e determinam o
que deve ser divulgado e sob qual ótica os fatos são apresentados à opinião
pública.
Há
muito se questiona a isenção e a imparcialidade dos meios de comunicação. Por
um lado, em virtude das relações imbricadas e promíscuas que envolvem os donos
dos veículos (muitos dos quais, editores de suas empresas de comunicação;
outros tantos, políticos herdeiros da velha estrutura colonial e familiar) com
setores conservadores, elitistas e golpistas; por outro, pela fragilidade de
parte de seus quadros profissionais, submissos (e impotentes) frente às determinações
patronais. Quem perde com essa situação é a democracia que deixa de ter na
imprensa o contraponto às mazelas sociais, econômicas e políticas.
Acompanhamos,
com perplexidade e surpresa, a cobertura que a mídia tem dado às denúncias de
corrupção que assolam frequentemente nossa República. A imprensa tem desprezado
o aprofundamento das informações e demonstrado discricionariedade e
seletividade na cobertura. A guerra do bem versus o mal reproduz o velho estilo
maniqueísta (uma forma de pensar simplista em que o mundo é visto como que
dividido em dois, reduzindo os fenômenos humanos e sociais a uma relação de
causa e efeito, certo e errado, isso ou aquilo; sendo que a simplificação nasce
da intolerância ou desconhecimento em relação a verdade do outro e/ou da pressa
de entender e refletir sobre a complexidade de tais fenômenos.). Quase não se
fala, por exemplo, sobre os corruptores, os donos do capital e os interesses
econômicos por detrás dos políticos e empresários corruptos. E que a corrupção não
é obra brasileira. Trata-se de uma grande engenharia multinacional, construída
para manter e fazer funcionar o capitalismo rentista.
Somos
bombardeados com um vendaval de informações pontuais, muitas vezes
descontextualizadas, passando a (falsa) impressão, por exemplo, de que todos
são, essencialmente, corruptos e desonestos quando, na verdade, o discurso do
combate à corrupção funciona como lenitivo de salvaguarda da elite
empresarial-midiática-política, historicamente envolvida até o pescoço com os malfeitos.
Os brasileiros e brasileiras não são corruptos por essência, como a mídia quer
que acreditemos. Mas nossas elites o são. Esse é o ponto. Essa mentira vendida
como verdade (de que todos são, indistintamente, corruptos) tem provocando um
misto de histeria coletiva de caça às bruxas, expressa na raiva, ódio e
desilusão em relação ao sistema político e provocado um imobilismo cívico – a
ideia de que este país não tem conserto. Portanto, entreguemo-lo para os ratos.
Outro
fenômeno que ressurgiu a partir das manifestações de 2013 e se recrudesceu nas
últimas eleições, em 2014, foi um misto difuso de ódio e vingança, fazendo da
disputa eleitoral uma verdadeira guerra, quando o processo democrático da
escolha dos representantes deveria ser tão e somente um embate civilizado e
respeitoso de ideias, opiniões e pontos de vista sobre os rumos do país. A quem
interessa um país no qual os cidadãos têm nojo da política?
Frente
a tanta (des)informação parece que estamos perdidos; que ninguém é honesto; que
não vale a pena lutar pela ética, a verdade, a justiça. A mensagem subliminar
seria, então, que vale a pena ser desonesto e chafurdar-se nas pequenas
corrupções do dia a dia? É essa a mensagem sub-reptícia que nos é passada por
essa mídia venal e fascista?
O
pior dos mundos é quando os cidadãos não reconhecem na ética, na verdade, na
mobilização social e na luta política os caminhos para as mudanças.
O
filósofo e cientista político esloveno Slavoj Žižek nos ajuda a pensar algo
muito importante: a unificação de todos os nossos medos (e/ou discursos do
medo) numa (falsa) verdade é o grande objetivo que sempre moveu os ideais dos
mais conservadores. Essa estratégia justificou o nazismo (os nazistas tinham
horror dos judeus, dos homossexuais...) ou o golpe civil-militar de 1964 (medo
do comunismo), por exemplo. E, agora, justifica a assunção de uma quadrilha ao
poder. Depois de transformar uma mentira ema verdade (que somente o PT e seus
quadros são corruptos), a mídia brasileira liderou a gangue que estuprou nossa
democracia. Não é mera coincidência o fato de o sistema de justiça desdenhar os
estupros reais, como o ocorrido no Rio de Janeiro, daqueles simbólicos, não
menos violentos, como o ocorrido com nossa democracia. A justiça, enquanto
sistema, não existe para produzir justiça; senão, para corroborar os intentos e
perversões dos poderosos.
O
fato, é que a soma dos muitos medos (os verdadeiros ou aqueles construídos no
imaginário social) é o ambiente propício para se criar um clima de pânico,
instalar a desconfiança generalizada, propagandear uma insatisfação irracional.
A partir daí, pode-se construir os pseudo-heróis "salvadores da
Pátria"; justifica-se o injustificável; elegem-se os bodes expiatórios
lançando-os à fogueira, na condenação midiática para o gozo sempiterno de uma
massa amorfa, porque sempre apartada da política.
Mesmo
nos regimes ditos democráticos, a construção orquestrada do medo pelos
segmentos cujos privilégios são colocados à prova pavimenta atalhos fáceis para
o golpismo. Mas, voltemos a Žižek: a partir da unificação dos medos é fácil
acatar como verdade inequívoca o discurso do ódio, da violência, da eliminação
a qualquer custo daquele que encarna os males e seus seguidores.
Outro
problema político vergonhoso, camuflado nesse cenário, é a intolerância, o
racismo, o sectarismo religioso, o preconceito – principalmente de matrizes
étnica e socioeconômica -, o fascismo disfarçado de nacionalismo. Esses
"demônios" saíram do armário (porque lá sempre estiveram) e seus
adeptos (que comportam como massa acéfala) querem se impor, afrontando a
democracia.
Infelizmente,
alguns privilegiados de ontem e de hoje não aceitaram uma sociedade que
caminhava, a passos lentos, na construção da igualdade de fato, para além da igualdade
de direito. Querem se manter como diferentes, ostentando os velhos privilégios
da Casa Grande. Por isso, preferem morar em Miami. Não conhecem a verdadeira
história deste país, porque a conquista de direitos, mesmo lenta e gradual, é
irreversível em qualquer sociedade minimamente democrática e plural.
A
igualdade de direitos faz parte do processo de consolidação da cidadania e é
fundamento da democracia. Não há democracia numa sociedade estamental, como era
o Brasil até bem pouco tempo. E não há democracia quando a mídia se transforma
em partido político a fomentar e dar suporte ao golpe e, agora,
transformando-se em porta-voz do governo golpista.

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