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| Cena do filme 'O Processo', de Orson Welles, adaptado da obra de Kafka REPRODUÇÃO |
Magistrados movem série de ações contra jornalistas
da 'Gazeta do Povo' após reportagem sobre 'supersalários'
Ações judiciais obrigam repórteres do jornal a
rodar o Estado do Paraná para responder a processos
Há
cerca de dois meses, um grupo de jornalistas percorre as estradas do Paraná tal
qual o personagem principal do romance O Processo, de Franz Kafka. Na ficção, o
protagonista Josef K. anda por corredores labirínticos de um tribunal soturno,
participa de sessões e dá testemunhos sem nunca descobrir do que, de fato, é
acusado. Na vida real, os jornalistas do diário Gazeta do Povo, de Curitiba,
sabem bem o que motiva os processos movidos contra eles. Mas a sensação de
absurdo, proporcionada por um périplo sem fim para comparecer em dezenas de
audiências em diferentes comarcas e que sempre tratam do mesmo assunto, é bem
semelhante. Até agora, são mais de 6.000 quilômetros rodados – uma média de 98
por dia – e 19 cidades visitadas.
Essa
história começou em fevereiro deste ano com a publicação de uma série de
reportagens que trata da alta remuneração da Justiça e do Ministério Público do
Paraná (MP-PR). Durante duas semanas, os repórteres Rogerio Galindo, Chico
Marés e Euclides Garcia dedicaram-se a compilar dados sobre os vencimentos de
juízes e membros do MP-PR. As informações usadas estão todas disponíveis,
segundo determinação da lei de transparência, para qualquer cidadão interessado
no site das instituições. O resultado do levantamento foi a descoberta de que
somados salários e benefícios, magistrados e promotores recebem, em média, ordenados que extrapolam em mais de 20% o teto do funcionalismo público..
A
reação não tardou. Em março, logo após a publicação naGazeta do Povo de um direito de resposta conjunto da Associação dos Magistrados do Paraná (Amapar) e
da Associação Paranaense do Ministério Público (APMP) – que se sentiram lesadas
com as reportagens –, processos começaram a ser movidos contra o jornal e os
signatários da série de artigos. Não ficaram de fora nem o analista de sistemas
Evandro Balmant, que ajudou na compilação dos dados salariais, já que o formato
disponível no site da Justiça paranaense é pouco amigável, e nem o infografista
Guilherme Storck, que elaborou o material gráfico.
Os
autores das ações, todas abertas em Juizados Especiais, em que as duas partes
são obrigadas a comparecer presencialmente para uma audiência de conciliação,
são juízes e promotores de diferentes municípios do Paraná. Nos processos, que
por enquanto somam 37, o texto é praticamente idêntico: os reclamantes
sentem-se ridicularizados e expostos, alegam danos morais e dizem que os
pagamentos estão todos dentro da lei. “A reportagem não afirma que os
pagamentos são ilegais, a intenção é apenas levantar um debate público sobre
teto salarial e a real remuneração no funcionalismo público” comenta Rogerio
Galindo. Em um dos textos, é dito literalmente sobre os vencimentos: “Fica tudo
dentro da legalidade, claro. O que se questiona é a moralidade e também os efeitos desse tipo de coisa”.
Ao
todo, as indenizações pedidas nos processos somam mais de 1 milhão de reais.
“Não é possível fazer acordo de conciliação nas audiências, porque isso seria
como uma confissão de culpa”, defende Galindo. Para a Gazeta do Povo, a moção
das ações é uma iniciativa coordenada que visa inviabilizar o trabalho da
imprensa. A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) concorda. “Os processos não buscam a reparação de eventuais danos, mas
intimidar, são um atentado à democracia”, registrou em nota. Já a Amapar diz
que não há coordenação e que os reclamantes exercem apenas seu direito, já que
a reportagem sugeriria que existe um ato ilícito sendo praticado ao usar
expressões como “supersalários” e “chicana”, que induziriam o leitor a
acreditar que o salário real está sendo aumentado por meios escusos. Uma charge
com um homem de toga segurando um saco de dinheiro também foi considerada
ofensiva por eles.
“É
claro que qualquer pessoa, inclusive os magistrados, tem o direito de entrar
com ações nos juizados especiais, mas o argumento de que houve exposição
vexatória é, no mínimo, estranho, já que a reportagem usa como base dados
públicos”, comenta Michael Mohallem, professor de Direito na Faculdade Getúlio
Vargas, no Rio de Janeiro (FGV-RJ). Para ele, o que a reportagem levanta, ainda
mais em tempos em que se fala em ajuste fiscal, é algo que precisa ser
discutido no Brasil. “Se for uma ação coordenada, os processos movidos contra
os jornalistas só são mais um exemplo da dificuldade que o Judiciário brasileiro
tem de lidar com a crítica aberta, apesar de estarmos falando de pessoas que
ocupam uma posição pública”, diz.
Transparência
e Justiça
Segundo
Luciano Da Ros, cientista político e pesquisador da Universidade Federal do Rio
Grande do Sul (UFRGS), quando se fala em ajuste fiscal é comum que só se pense
no poder Executivo, mas não há razão para que isso não seja feito também em
outras esferas. “O Judiciário brasileiro tem uma autonomia enorme e pouca
tradição de fiscalização externa; não à toa, o Conselho Nacional de Justiça
(CNJ) foi criado há pouco mais de 10 anos, e o resultado disso é que há muito
pouco incentivo para que os tribunais controlem seus próprios gastos e sejam
eficientes”, comenta. Da Ros é coautor, ao lado do brasilianista Matthew M. Taylor,
de um estudo que faz um comparativo da eficiência da Justiça brasileira com a
de outros países. Uma das conclusões é que a despesa do Poder Judiciário brasileiro é a maior do mundo ocidental: 1,30% do PIB, enquanto os gastos de
países como Espanha, EUA e Inglaterra ficam entre 0,12% e 0,14%.
Da
Ros argumenta que existem vários motivos que explicam essa despesa tão
discrepante, e um deles é a alta carga de trabalho do Judiciário brasileiro.
Atualmente, há praticamente 1 processo para cada 2 habitantes. Contudo, o
próprio volume de ações demonstra problemas, inclusive históricos, da Justiça
no Brasil que deveriam ser alvo de discussão e escrutínio público, mas que
devido a certo isolamento do Poder para com a sociedade dificilmente são
revelados. Por exemplo, outro dado levantado pelo pesquisador é o de quantas
vezes o salário oficial dos magistrados é superior ao PIB per capita do
brasileiro. Em início de carreira, os juízes federais ganham 13.1 vezes o PIB
per capita no Brasil, e em fim de carreira, no STF, esse número pula para 16
vezes. Na Alemanha, por exemplo, juízes em início de carreira ganham 1,2 vezes
o PIB per capita, e aqueles em fim de carreira ganham 3,11 vezes.
“O
elevado nível de autonomia do Poder Judiciário no Brasil, que é benéfico para
manter sua isenção e imparcialidade, pode ao mesmo tempo se tornar prejudicial
para a boa administração da Justiça se não for acompanhado de mecanismos de
transparência”, comenta Da Ros. Daí advém, segundo ele, uma das dificuldades
que o Poder encontra de se autofiscalizar e tratar de seus gastos. Em um estudo
sobre Transparência Pública, o pesquisador Luiz Moncau, da FGV-RJ, concluiu que
há muita dificuldade para entender como a remuneração funciona no Judiciário
brasileiro. “Há um emaranhando legal muito complexo para se entender o
detalhamento das rubricas, é difícil, por exemplo, conseguir separar o que são
ganhos que devem ser computados dentro ou fora do teto salarial”, explica.
Moncau
também lembra que há um nível de judicialização bastante alto quando o assunto
é remuneração de juízes e servidores. “Por exemplo, se o MP recebe um adicional
de auxílio escolar, os membros da magistratura entram com uma ação para ganhar
também, afinal está na Constituição que os dois têm o mesmo status”, diz. Para
ele, além da questão legal, há uma questão moral envolvendo os rendimentos
recebidos no Judiciário e, por isso, essa informação é de interesse público.
“Nesse sentido, o trabalho dos jornalistas é fundamental, por isso chama a
atenção o que está acontecendo no Paraná depois da publicação da Gazeta do
Povo, ainda mais levando em consideração que, em todo mundo, liberdade de
imprensa e judiciário independente geralmente andam juntos”, completa Da Ros.
Em
1º de abril, os cinco profissionais da Gazeta do Povo viajaram 579 quilômetros
– de Curitiba a Assis Chateaubriand, no extremo oeste do Estado – para
participar da primeira da série de audiências programadas que se seguiriam
naquele e nos próximos meses. O roteiro é sempre o mesmo. Chegar ao fórum,
ouvir a primeira pergunta que trata da possibilidade de um acordo, responder
que não há essa possibilidade; ouvir a segunda pergunta que trata da intenção
de apresentar novas provas ou ouvir testemunhas, negar, mas ficar na
expectativa, porque se o autor da ação disser que sim, um novo encontro de
instrução será marcado para além do definitivo em que ocorrerá o julgamento.
Tudo não dura mais do que 15 minutos, o que reforça a sensação de absurdo
kafkaniano.
O
caso, como apontado pelos jornalistas e pelos especialistas ouvidos pela
reportagem, guarda semelhanças com a enxurrada de ações que a Folha de S. Paulo
recebeu de fiéis da Igreja Universal que passaram a processar a repórter Elvira
Lobato, após uma reportagem sobre o patrimônio da organização. Como lembra a
nota da Abraji que repudia as ações movidas pelos juízes paranaenses, “as mais
de 90 ações judiciais por danos morais não prosperaram e em alguns casos houve
condenação da Universal e de fiéis por litigância de má-fé”. No final, a
repórter ainda teve seu trabalho premiado. “Agora, o fato de que os juízes
estão envolvidos na questão direta ou indiretamente torna tudo mais
preocupante”, comenta Mohallem.
De
fato, quatro juízes de Londrina já se declararam impedidos de julgar a causa
por se considerarem parte indireta delas. Em outro caso, a juíza Suzie Fortes,
de Maringá, argumentou que embora não tenha se sentido ofendida com as
matérias, julgava-se impedida de julgar, porque “as reportagens foram objeto de
comentários e debates entre juízes deste Estado”. A mesma argumentação levou a
Gazeta do Povo a pedir que o STF se encarregasse das ações, mas a ministra Rosa
Weber, para quem a matéria foi distribuída, negou a reclamação. O jornal apresentou
recurso no final de maio, mas ainda não há uma nova decisão.
Depois
da decisão de Weber, houve um endurecimento por parte dos reclamantes durante
as audiências, comenta Galindo. O fato de que alguns começaram a pedir um
segundo encontro de instrução é um sinal disso. Outro é um áudio em que Walter
Ligeire Júnior, magistrado de Paranaguá, diz durante a audiência de conciliação
que os jornalistas ainda teriam que viajar muito pelo Paraná. “São 700 juízes preparando ação, umas 300. Podem se preparar.. Vocês vão conhecer todas as
comarcas, vai ser uma enxurrada. Tudo aqui é padrão, a inicial é padrão, a
contestação é padrão, é igual em todas”, disse Ligeire referindo-se à
padronização das ações movidas. Ainda segundo ele, a “Amapar infelizmente não
tem nada a ver com isso” e tudo teria partido de um movimento dos juízes.
Durante
esta semana, o caso foi tema de reportagens em diferentes jornais brasileiros,
alvo de comentários de sindicatos de jornalistas e assunto de um editorial da
Folha de S. Paulo. O primeiro reflexo da repercussão, segundo Galindo, foi um
aumento de abertura de processos. Até agora, eles já identificaram três novos.
Enquanto isso, a peregrinação pelas estradas paranaenses tem praticamente
impossibilitado o trabalho dos cinco autores da série de artigos, além de
trazer problemas na vida pessoal. Galindo tem um filho de três anos. Chico
Marés acabou de passar em um mestrado em Londres e não sabe como conciliará com
as audiências. Euclides Garcia está esperando o nascimento de seu primeiro filho.
Se tudo der certo para o dia 6 de julho, quando ele tem uma audiência marcada
em Cascavel, distante quase 500 quilômetros da capital.
Fonte:elpais



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