Ítalo, 10 anos, morreu após ser baleado na cabeça
por policiais militares durante uma perseguição em bairro rico da capital
Ítalo
Ferreira de Jesus Siqueira, 10 anos, morreu na noite de quinta-feira 2 após ser
baleado na cabeça por policiais militares de São Paulo. Esse foi o desfecho da
perseguição policial motivada pelo furto de um carro na região de Vila Andrade,
bairro rico da zona sul de São Paulo. Entenda os principais pontos do caso:
O
que aconteceu?
O
menino de dez anos morreu após ser baleado na cabeça por policiais militares na
quinta-feira 2. O tiro, dado com uma pistola .40, atingiu a criança na região
do olho esquerdo. A operação da PM tinha como objetivo recuperar um carro
Daihatsu modelo 1998 que havia sido furtado, por Ítalo e outra criança de 11
anos, de um condomínio na região.
Do
que as crianças são acusadas?
Ítalo
e a outra criança teriam pulado o muro de um condomínio na Vila Andrade, a 300
metros do local onde o menino foi morto, e tentado furtar um carro. Os dois
teriam saído do prédio com o carro, cujo vidro estaria aberto e a chave, na
ignição. Na sequência, Ítalo bateu o carro na traseira de um ônibus e de um
caminhão, quando finalmente parou.
Do
que os policiais são acusados?
Os
dois policiais militares investigados pela morte de Ítalo são Israel Renan
Ribeiro da Silva e Otávio de Marqui. Segundo os policiais, a criança teria
disparado três tiros contra eles enquanto dirigia o veículo. A versão dos
militares está sendo investigada pela Corregedoria da PM e pelo Departamento de
Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
O
principal objetivo é descobrir qual é a origem da arma calibre 38 que, segundo
a versão apresentada pelo policiais, estaria com o menino. Em depoimento, o
policial responsável pela morte afirmou que tentou atirar no ombro do menino.
Os policiais envolvidos na operação ficarão afastados do trabalho externo até o
fim das investigações.
O
que diz a versão da PM?
De
acordo com a versão oficial dos policiais militares que participaram da ação,
Ítalo teria efetuado dois disparos contra os policiais entre as batidas e uma
terceira vez quando parou na traseira do caminhão. O tiro na cabeça teria sido
dado neste momento. Um advogado de 45 anos entrevistado pela Folha de S.Paulo
relatou ter ouvido um disparo de arma de fogo partido do carro onde estavam as
crianças. Ele afirma que estava na rua no momento da perseguição.
O
que diz o menor que estava com Ítalo no momento da ocorrência?
O
menino, de 11 anos, que estava com Ítalo na hora do caso, deu três versões
diferentes sobre o que aconteceu. No primeiro relato, gravado em vídeo por
policias e divulgado para a imprensa, o menino afirmou que Ítalo atirou duas
vezes contra a PM e, mais uma vez, antes de ser atingido, confirmando a versão
oficial da PM sobre o ocorrido.
No
segundo depoimento, disse que Ítalo efetuou os disparos durante o trajeto – e
não depois que o carro bateu. Na terceira, apresentada em depoimento à
Corregedoria da PM no domingo 5, afirmou que apenas os PMs efetuaram disparos e
quem nem ele e nem Ítalo estariam armados, na contramão da versão oficial.
Em
depoimento ao site Ponte Jornalismo, funcionários do condomínio declararam que
os dois chegaram a circular pelo condomínio antes de levar o carro e que em
nenhum momento mostraram possuir algum tipo de arma. Após o ocorrido, o menor
foi entregue aos responsáveis. De acordo com a legislação, menores de 12 anos
não podem ser detidos.
O
que está no vídeo da primeira fala do garoto de 11 anos?
A
gravação, feita supostamente por policiais militares, trazia o menor de 11 anos
confirmando a versão oficial de que Ítalo teria disparado três tiros contra os
PMs. O depoimento foi feito após a abordagem policial e obtido pelo portal G1.
Segundo o DHPP, a criança teria ficado cinco horas com os policiais antes de
fazer a gravação.
O
menino foi interrogado sem a presença dos responsáveis e de um advogado. No
vídeo, o menino diz que Ítalo o chamou para roubar o prédio e, após ver o carro
com vidro aberto, dirigiu até a saída do condomínio. Disse ainda que ítalo
teria dito que pretendia “matar os moradores do condomínio” para “dormir no
prédio”.
"Aí,
ele atirou nos polícia, deu três tiros", disse. Em seguida, é questionado:
"E depois que os policiais encontraram vocês, ele deu tiro pra cima dos
policiais, ele se machucou, aí os policiais te salvaram?" O menino
respondeu que sim e que começou a chorar dentro do carro. O interlocutor ainda
diz que “mas agora todo mundo te tratou bem, você está protegido” e o menino
responde: “Tô”. Questionado se nunca mais roubaria, respondeu que queria
estudar, virar jogador de futebol e ser “alguém na vida”.
O
que dizem especialistas no direito da criança e do adolescente sobre a
gravação?
Para
juristas especialistas em direitos da criança e do adolescente, possivelmente a
criança foi coagida a gravar o vídeo para produzir provas para a defesa dos
PMs. O interrogatório de um menor de idade sem a presença dos advogados pode
também ter infringido o Estatuto da Criança e do Adolescente.
Em
depoimento ao DHPP, testemunhado por Ariel de Castro Alves, conselheiro do
Conselho Estadual dos Direitos da Pessoa Humana de São Paulo (Condepe-SP), o
menino disse que foi jogado de bruços no chão pelos policiais, que disseram que
o matariam se não o levassem até a mãe do menor de idade. Também relatou ter
recebido um soco no rosto de um PM.
O
que diz a perícia?
Os
peritos que analisam o caso afirmaram na quinta 9 que a cena do crime foi
alterada e que, inicialmente, não há indícios de que tenham sido feitos
disparos de dentro do carro dirigido pela criança. Entre as evidências de que a
cena do crime foi alterada, estão o fato de que o carro estava revirado e o
corpo de Ítalo, mexido.
Em
depoimento de quatro horas, uma testemunha
mudou a versão do depoimento e agora afirma que não sabe de onde
partiram os tiros que escutou. A testemunha é advogado e mora na região onde
ocorreu o caso. A princípio, ele afirmou à Folha de S.Paulo que os tiros
partiram do carro.
Em
um exame residuográfico, a perícia teria também detectado rastros de pólvora e
chumbo nas mãos de Ítalo. O resultado, porém, não é conclusivo para afirmar que
ele atirou durante a perseguição, segundo delegados do DHPP ouvidos pela Folha
de S.Paulo. O motivo é que bastaria encostar a arma recém-utilizada nas mãos da
criança para deixar os resíduos e influenciar o resultado.
O
que disseram as autoridades?
O
governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB-SP), disse que o vídeo
"parece ser espontâneo" e "é evidente que (os meninos) estavam
armados". Afirmou que o caso é uma tragédia e que nenhuma hipótese está
descartada.
Em
nota oficial, o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Mágino Alves
Barbosa Filho, reafirmou a versão oficial da PM de que a criança teria efetuado
disparos contra os policiais. Os PMs revidaram os disparos e o atingiram.
"O menino morreu e o colega, de 11, foi apreendido."
Comandante-geral
da PM paulista, o coronel Ricardo Gambaroni declarou não acreditar em
“excessos” por parte dos PMs na operação.
Fonte:
cartacapital

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