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| Beto Soares/Estúdio Boom |
A
Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), realizada pelo IBGE, mostrou que em 2013,
3.568.095 trabalhadores disseram ter tido diagnóstico de LER/DORT. Há décadas,
dentre as doenças ocupacionais, são as mais frequentes nas estatísticas da Previdência
Social.
Para
a médica e pesquisadora Maria Maeno, da Fundacentro de São Paulo, o número
apontado pela PNS parece chegar mais próximo à realidade do que se conhece por
estudos sobre diferentes categorias profissionais, pela experiência dos sindicatos
e pela demanda atendida em serviços de saúde.
Desde
2000, o dia 28 de fevereiro é considerado o Dia Internacional de Combate às
Lesões por Esforços Repetitivos ou Distúrbios Osteomusculares Relacionados do
Trabalho (DORT). Pesquisadores da Fundacentro comentam sobre a doença que é
vista como uma das doenças ocupacionais que ainda geram incapacidade
prolongada.
De
acordo com o protocolo do Ministério da Saúde, as LER/DORT "são, por
definição, um fenômeno relacionado ao trabalho. São danos decorrentes da
utilização excessiva, imposta ao sistema musculoesquelético, e da falta de
tempo para recuperação. Caracterizam-se pela ocorrência de vários sintomas,
concomitantes ou não, de aparecimento insidioso, geralmente nos membros
superiores, tais como dor, parestesia, sensação de peso e fadiga. Abrangem
quadros clínicos do sistema musculoesquelético adquiridos pelo trabalhador
submetido a determinadas condições de trabalho."
No
boletim estatístico produzido pela Fundacentro, a PNS mostrou que com relação
às limitações das atividades diárias causadas pela DORT, como dificuldades em
trabalhar, ir ao trabalho, realizar afazeres domésticos e de autocuidado, como
vestir-se e tomar banho, quase 16% dos entrevistados referiram que elas eram
intensas ou muito intensas.
Segundo
o boletim, "a PNS também investigou sobre processos terapêuticos e de
reabilitação, observou que 906.363, o que equivale a 25,40% dos entrevistados
realizam ou realizaram algum tipo de exercício e/ou fisioterapia para minimizar
os efeitos da LER/DORT, e quase 35% (1.247.300) deles usaram ou fazem uso de
tratamento com injeções ou medicamentos pelos mesmos problemas."
A
cronicidade da dor e da incapacidade para o trabalho são características de
muitos casos de LER/DORT, o que leva à estigmatização e discriminação dos
trabalhadores adoecidos. "O tempo de trabalho em uma empresa, que no
passado era um aspecto positivo nos processos de seleção, atualmente significa
o tempo de desgaste físico e psíquico para o trabalhador que trabalha em
atividades nas quais a incidência de LER/DORT é alta," salienta Maeno.
A
médica também relata que muitos trabalhadores adoecidos, ao não conseguirem se
reinserir no mercado de trabalho e ao manterem a dor e incapacidade, entram com
processo na justiça do trabalho, buscando a reintegração ou indenização. Maeno
desenvolve,atualmente, um estudo que analisa os laudos periciais de processos
trabalhistas quanto aos aspectos conceituais de adoecimento, de incapacidade e
de nexo causal do quadro clínico com o trabalho.
O
tecnologista da Fundacentro de Santa Catarina, Léo Vinicius Maia Liberato,
comenta que está desenvolvendo um projeto sobre bancários e que tem observado
que cada vez mais as pesquisas com esses trabalhadores têm sido relacionadas os
fatores de organização do trabalho e o aparecimento da LER/DORT.
"Uma
organização do trabalho que através do controle do tempo, da pressão por metas,
de uma determinada divisão do trabalho ou mesmo de protocolos rígidos, não
deixa margem de regulação de forma coletiva e individual, da carga de trabalho
aos trabalhadores. Isso por sua vez, é propício ao aparecimento de agravos à
saúde dos trabalhadores, incluindo às LER/DORT. No caso dos bancários é
bastante claro que a gestão por metas instituída nos bancos e a pressão
decorrente são centrais no sofrimento e adoecimento desses trabalhadores. A
questão, portanto, que é também uma questão política, é como construir essa
autonomia, esse poder de agir dos bancários na sua atividade, diante das atuais
formas de organização do trabalho e de gestão", salienta Liberato.
Outros
aspectos psicossociais do trabalho também contribuem para o surgimento e
agravamento das LER/DORT, como a falta de suporte social no trabalho, gestão
baseada no assédio moral e pressão psicológica constante. As pesquisadoras da
Fundacentro, Daniela Sanches Tavares, de São Paulo e Juliana Andrade Oliveira,
de Santos, estão inseridas no projeto "Relatos e Atualizações sobre
Atenção Integral aos Trabalhadores com LER/DORT e AMERT nos Cerest´s". A
médica Maria Maeno orienta e participou da concepção do trabalho.
Daniela
Sanches comenta que o projeto é oriundo de uma demanda do Cerest Guarulhos de
apoio técnico científico. No final de 2013, Elaine de Paula, ex-aluna da
pós-graduação da Fundacentro, e Rosa Maria do Amaral, ambas do CEREST Regional
Guarulhos, à época coordenada por Walquíria Kasaz, procuraram ajuda da
Fundacentro para fazer um relato da prática desenvolvida por elas há vários
anos, de intervenção transdisciplinar com trabalhadores acometidos por LER/DORT
e outras afecções musculoesqueléticas relacionadas ao trabalho.
"Ao
longo do trabalho, e em contato com outros CERESTs, percebemos a conveniência e
oportunidade de promover um espaço de reflexão e troca de experiências entre os
profissionais de outros CERESTs do Estado de São Paulo. Assim, no ano de 2015,
foi realizada uma oficina voltada a debater a expectativa dos técnicos que
conduzem estas intervenções quanto aos resultados deste trabalho e ainda outras
questões que surgissem no debate. A iniciativa foi muito bem recebida e
aproveitada pelos CERESTs participantes que trouxeram, dentre outras questões,
a importância de se integrar as ações de assistência com a vigilância. Também
foram tema de debate, a necessidade imperativa de se mudar as condições de
trabalho para que seja possível a reabilitação profissional dos adoecidos, de
forma a garantir a integralidade das ações do Sistema Único de Saúde (SUS)
nesta área e, possibilitar a intervenção de forma mais precoce nos adoecimentos
do trabalho e ainda a primordialidade de humanizar a formação dos profissionais
de saúde", aponta Daniela.
Já
Juliana Andrade discorre que é frequente que os trabalhadores adoecidos por LER
caiam em adoecimento emocional. Exalta que os sintomas da LER, DORT e AMERT são
invisíveis, mas incapacitantes até mesmo nas atividades domésticas cotidianas.
"Devido a essa fragilização, que vai além da atividade de trabalho a qual
desempenhavam, é comum que os profissionais dos Cerests se deparem com
pacientes com sintomas de depressão, angústia e medo de voltar ao trabalho.
Frequentemente esses trabalhadores necessitam de tratamento psicológico, pois
apesar de incapacitante, a LER é invisível, o que faz com que esses
trabalhadores se vejam solitários, sem a compreensão das pessoas que convivem
com ele", destaca Oliveira.
Para
ela, diante deste quadro, alguns Centros de Referência em Saúde do Trabalhador
se lançaram ao desafio de acompanhar seus pacientes com abordagens que
atacassem ao mesmo tempo as limitações físicas e o sofrimento emocional.
"Na prática, os pacientes de LER/DORT demonstram a necessidade de um
trabalho terapêutico e educativo que considere a totalidade biopsicossocial do
sujeito", finaliza Juliana.
Para
este ano, Daniela diz que a "ideia é produzir um documento em conjunto com
todos os participantes desta oficina e divulgá-lo, uma vez que pode ser de
grande utilidade para novos profissionais e para a disseminação de
conhecimentos sobre atenção integral a trabalhadores acometidos por
LER/DORT", salienta. Este projeto é objeto de um Acordo de Cooperação
Técnica firmado entre Fundacentro e Secretaria Municipal de Saúde de Guarulhos
e contou com o apoio e orientação de Leny Sato e Fábio de Oliveira, ambos do
IP-USP. A organização da Oficina contou também com a colaboração de Maria Teresa
Bruni Daldon, do Cerest da Freguesia do Ó e de Carolina Grando, aluna da
pós-graduação da Fundacentro.
A
pesquisadora da Fundacentro do Rio Grande do Sul, Maria Muccillo, explana que o
trabalho em frigoríficos é um mundo à parte quando se observa sob a óptica da
Segurança e Saúde do Trabalho. "A Norma Regulamentadora nº 36, em seu
texto, particulariza o cenário produtivo e decodifica os fatores que se
constituem em agressões diretas e/ou possibilidades indiretas. Desde os
aspectos de infraestrutura predial, maquinário, organização, modo de produção,
estratégias administrativas, ao priorizar a produção sobre a qualidade de vida
dos trabalhadores. Destacam-se as LER/DORT pela gravidade, grau de incidência e
por ter seu espaço conquistado à duras penas para ser conhecido e reconhecido.
Porém, os fatores que geram esse tipo de adoecimento, geram também outros, ainda
pouco discutidos e relacionados entre si, refiro-me aos cardiovasculares,
respiratórios e relacionados à saúde mental", aponta Muccillo.
Para
Maria, se a base científica que está por detrás dos dispositivos da NR-36 for
compreendida pelos empresários e trabalhadores -, muitos avanços poderão
ocorrer e, com isto, o setor poderá mudar o seu perfil de "atividade que
adoece" para "atividade que busca incessantemente harmonizar a
produção, os negócios e a verdadeira SST". "A cada visita técnica
realizada em diferentes empresas e corporações no ramo, encontramos um
descompasso entre esses com indicadores, gerando ou incubando situações que
levaram e levarão a grandes perdas - tanto para a empresa como para seus
trabalhadores, se persistir como está no momento de fatos", frisa a
pesquisadora.
Fonte:
protecao

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