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O retrato panorâmico e cruel da violência da homofobia no Brasil

Vítimas assassinatos motivados por homofobia noticiados pela imprensa | Fotos de arquivo


Do oglobo
Reportagens publicadas desde os anos 90 revelam violência da homofobia no Brasil

Um julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF) pode tornar crime a discriminação contra membros da comunidade LGBT+. Desde quarta-feira, a Corte analisa duas ações pedindo que ataques motivados por homofobia sejam enquadrados como crime de racismo. Para tanto, as entidades alegam que o Congresso Nacional tem sido omisso ao lidar com o avanço no número de vítimas: somente em 2018, foram 420 assassinatos no Brasil, segundo o Grupo Gay da Bahia. Neste post, o "Blog do Acervo" reuniu reportagens publicadas pelo GLOBO desde os anos 90 que contam casos de gente inocente morta pelo ódio e a intolerância. Gente como as 15 travestis executadas na capital paulistana em 1993; como o baiano José Leonardo, de 22 anos, que em 2012 foi assassinado quando andava abraçado com seu irmão; ou como o menino Alex, de 8 anos, espancado até a morte por seu pai, que queria ensiná-lo a "andar igual homem", na Zona Oeste do Rio, em 2014.

De janeiro a setembro de 1992 foram ao menos 50 crimes denunciados, segundo reportagem | Acervo O GLOBO

De janeiro a setembro de 1992, pelo menos 50 crimes contra homossexuais foram denunciados, segundo levantamento do Grupo Gay da Bahia. Outro dado apurado pelo grupo apontou 1.200 assassinatos no país de 1980 a 1991. O objetivo dos levantamentos era denunciar "um fenômeno que cresce ano a ano”: crimes motivados por homofobia. O mesmo grupo constatou que, em 2018, foram registradas 445 mortes de homossexuais. Deste total, 76% foram homicídios e 24% suicídios; 56% dos casos aconteceram em vias públicas e 37% na casa da vítima.

Reportagem de 21 de março de 1993 revela atuação de grupo de extermínio | Acervo O GLOBO

No início de 1993, um grupo de extermínio aterrorizou travestis em zonas de prostituição de São Paulo. Segundo a reportagem do GLOBO em 21 de março daquele ano, os criminosos paravam o carro como se fossem clientes e, quando a vítima se debruçava sobre a janela, era atingida por um tiro na testa. Em três meses, 15 travestis foram mortas. No dia 26 de março, o então policial Cirineu Carlos Letang foi preso pela morte de três travestis. Condenado, ficou 18 anos na cadeia até passar a regime aberto, em 2011, por comportamento exemplar. Mas foi preso de novo dois meses depois, sob suspeita de matar outra travesti.

André Gonçalves foi agredido por causa de um personagem gay vivido por ele em novela | Acervo O GLOBO

O ator André Gonçalves, da TV Globo, foi xingado e espancado em janeiro de 1997, na Gávea, bairro da Zona Sul carioca. Segundo o artista, os agressores o atacaram por causa de Sandrinho, personagem gay que ele viveu na novela "A próxima vítima", exibida no ano anterior. No momento da agressão, Gonçalves voltava de uma gravação de outra novela, que já estava no ar: "Salsa e Merengue".

Edson Neris foi espancado por 30 neonazistas, segundo reportagem de fevereiro de 2000 | Acervo O Globo

O adestrador de cães Edson Neris da Silva, de 35 anos, andava de mãos dadas com Dario Parreira quando foi espancado até a morte, no dia 1 de fevereiro de 2000, por um grupo de 30 neonazistas, na Praça da República, reduto de prostituição masculina em São Paulo. “Ele levou uma rasteira e caiu. Aí foi um massacre”, relatou uma testemunha. Dezoito suspeitos foram detidos, entre eles uma mulher, que portava um soco inglês usado no linchamento. Integrantes do grupo Carecas do ABC, Juliano Filipini Sabino e José Nilson Pereira da Silva foram sentenciados a 21 anos de prisão. Segundo o promotor Mercelo Milani, foi a primeira condenação no Brasil por intolerância sexual.

Quatro agressores foram presos após atacar vítimas na Orla de Copacabana, em 2000 | Reprodução

Um grupo de quatro lutadores de jiu-jitsu foi preso na madrugada do dia 1º de agosto de 2000 por perseguir e atirar em travestis com armas de ar comprimido, na esquina da Rua Sá Ferreira com a Avenida Atlântica, em Copacabana. Entre os lutadores, estava Roger Gracie, da família de nome tradicional do jiu-jitsu no Brasil, então com 19 anos. O quarteto vinha de uma festa de comemoração pelo bom desempenho no Mundial da modalidade, disputado uma semana antes. Os atletas detidos foram autuados por lesões corporais leves e, em seguida, liberados.

Tradicional reduto LGBT na Praia de Ipanema foi cenário de violência homofóbica, em 2003 | Acervo O GLOBO

Em fevereiro de 2003, o jornal relatou um problema crônico que vinha se arrastando desde anos antes. Gangues de moradores de Ipanema espancavam gays que frequentavam bares na Rua Farme de Amoedo e o trecho da praia em frente, tradicional reduto LGBTQI na cidade. "São rapazes bem-nascidos, educados em colégios particulares e caros, alguns deles casados e com emprego fixo, que fazem essas barbaridades", disse Raimundo Pereira, na época coordenador do Grupo Atobá. Em 1999, uma reportagem do GLOBO já havia mostrado que uma gangue de jovens de classe média aterrorizava a área.

Assassinatos de gays atingem recorde em 2006 | Reprodução

Em fevereiro de 2007, uma reportagem do GLOBO mostrou que o Disque Denúncia Homossexual registrou 45 assassinatos em 2006, o maior número desde o início do serviço, em 1999. Embora homens gays representassem a maior parte das vítimas, transexuais e travestis eram, proporcionalmente, alvos preferenciais.

Uma das vítimas teve lâmpadas quebradas no rosto, segundo reportagem de 2010 | Acervo O GLOBO

O estudante Luís Alberto Betonio, de 37 anos, voltava para casa na Avenida Paulista com mais dois amigos, no dia 14 de novembro de 2010, quando foi atacado por um grupo de cinco jovens. O único maior de idade entre os agressores à época, Jonathan Lauton Domingues, foi condenado, em 2015, a nove anos de prisão. Na ocasião, um dos integrantes do grupo portava duas lâmpadas fluorescentes, que foram usadas para atingir Betonio no rosto. O estudante ainda foi imobilizado com um mata-leão e agredido na cabeça pelos outros quatro infratores.

Reportagem de 2010 sobre estudante baleado por sargento ao deixar Parada Gay de Copacabana | Acervo O Globo

Enquanto namorava no Parque Garota de Ipanema, após sair da Parada Gay de Copacabana, em novembro de 2010, o estudante Douglas Igor Marques contou que foi abordado por três militares do Exército, que o ameaçaram com insultos homofóbicos. “Viado tem que morrer”, “se eu matar você, faço um favor para a sociedade” e “você é uma vergonha para a sua família” teriam sido as frases ditas pelos acusados, antes de o sargento do Exército Ivanildo Ulisses Gervásio atirar contra o abdôme da vítima. Marques foi socorrido e liberado na tarde do crime. Réu confesso, o autor do disparo foi indiciado por tentativa de homicídio duplamente qualificado, teve prisão preventiva decretada e pedido de habeas corpus negado.

Parece Idade Média, mas era 2012: homem morto por andar abraçado com irmão | Acervo O GLOBO

José Leonardo Costa da Silva, de 22 anos, voltava para casa após uma festa de carnaval fora de época, abraçado com o irmão gêmeo, José Leandro, em Camaçari, na Grande Salvador, em junho de 2012. Cercados por oito homens, os dois foram espancados e apedrejados. José Leonardo morreu. José Leandro chegou ao Hospital Geral de Camaçari com afundamento na face, mas receberia alta dias depois. Três dos sete homens conduzidos à delegacia foram autuados em flagrante por homicídio qualificado e formação de quadrilha. Um estava foragido.

Mais de 100 gays são mortos por ano: matéria da cobertura das Eleições de 2010 | Reprodução

O Grupo Gay da Bahia (GGB) registrou o assassinato de 165 homossexuais no Brasil apenas no primeiro semestre de 2012. O total era 28% maior que o apurado no levantamento do mesmo período do ano anterior. Em números absolutos, São Paulo, o estado mais populoso do país, apresentava a maior quantidade de ocorrências: 19, seguido de perto por Paraíba, com 15, e Bahia, com 14. A organização não governamental não obteve informações sobre os estados de Rondônia e Acre.

Caso de filho morto pelo pai comoveu o Brasil, em 2004 | Acervo O GLOBO

O menino Alex, de 8 anos, foi espancado até a morte pelo próprio pai, Alex André Moraes Soeiro. Segundo a reportagem acima, o morador da Vila Kennedy, na Zona Oeste do Rio, ficou horrorizado porque o garoto gostava de dança do ventre e de lavar a louça. Ele agredia a criança regularmente, para ele "aprender a andar como um homem". Em 17 de fevereiro de 2014, uma sessão de espancamento causou uma hemorragia interna no menino, que não resistiu. Preso em seguida, Alex André ele foi condenado e está cumprindo sua pena de 28 anos de cadeia.

Corpo de estudante de Letras foi achado com sinais de espancamento, segundo matéria de 2016 | Acervo O GLOBO

O estudante Diego Vieira Machado, de 29 anos, que cursava Letras na UFRJ e morava no alojamento da universidade, no campus da Ilha do Fundão, foi encontrado morto e com sinais de espancamento às margens da Baía de Guanabara, em julho de 2016. O jovem vinha denunciando ao Rio Sem Homofobia ameaças de outros alunos da UFRJ contra ele. Dias antes do crime, um banheiro do campus havia sido pichado com a frase "Morte aos gays da UFRJ". O assassinato jamais foi esclarecido.


Plinio Henrique foi morto na rua, em São Paulo: Reportagem de 23 de dezembro de 2018 | Acervo O GLOBO

Plínio Henrique de Lima, de 30 anos, foi morto na esquina entre as avenidas Paulista com Brigadeiro Luiz Antônio, em São Paulo, no dia 22 de dezembro do ano passado. O cabeleireiro acabara de deixar o Parque do Ibirapuera com o companheiro, Anderson (eles estavam casados havia quatro anos e pretendiam adotar uma criança). No caminho, dois homens começaram a hostilizar o casal, que estava acompanhado por dois amigos, e houve discussão. Plínio foi esfaqueado no tórax. O agressor fugiu, mas foi identificado graças a câmeras de vigilância do Metrô. Fúlvio Rodrigues de Matos, de 32 anos, confessou o crime e foi preso, mas negou as ofensas homofóbicas.
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