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| Zeca Ribeiro I Camara dos Deputados |
Ingrid
Fagundez
Da
BBC Brasil em São Paulo
"Você
vai falar com o pastor agora." Quando o assessor passa o telefone ao
deputado Marco Feliciano (PSC-SP), avisa que, além do político, está ali a
liderança religiosa. E ela é parte importante das opiniões de Feliciano, membro
da comissão de impeachment para quem Deus e as igrejas tiveram um papel na
crítica ao governo.
"As
igrejas começaram a se mover. Elas eram apolíticas, né? Até que começaram a
perceber que a política podia (se) movimentar atrapalhando a fé delas."
Figura
polêmica por suas posições contrárias ao casamento homossexual e ao aborto, o
deputado votou na segunda-feira pela aprovação do parecer do relator Jovair
Arantes (PTB-GO), favorável à abertura do processo de afastamento da presidente
Dilma Rousseff.
Em
entrevista à BBC Brasil, ele diz que "seu sonho primário" é ver o PT
perder o governo e chama o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, de "meu
malvado favorito", elogiando-o por ter aceitado o pedido de impeachment.
"O
Cunha, todo mundo chama de malvado, né? Se ele é malvado, para mim é meu
malvado favorito. Porque ele colocou o impeachment para andar."
O
deputado também defendeu as várias menções religiosas durante a última reunião
da comissão, que começou com seu presidente, o deputado Rogério Rosso (PSD-DF),
entoando a oração de São Francisco de Assis. Para Feliciano, isso não feriria o
princípio do Estado laico.
"Graças
a Deus por o Estado ser laico. O Parlamento não começa a sessão sem o
presidente ficar de pé e dizer: 'sob a proteção de Deus e em nome do povo
brasileiro'."
Leia
abaixo os principais trechos da entrevista.
BBC
Brasil - Como você avalia a aprovação do parecer de Jovair Arantes na comissão
do impeachment?
Marco
Feliciano - Foi uma surpresa. Nós temos um grupo que trabalha de manhã, de
noite, de madrugada, em prol do impeachment. E acreditávamos que teríamos entre
33 e 35 votos. Tivemos 38. Isso nos deixou com muita esperança de que o
impeachment vai ser aprovado no dia 17.
BBC
Brasil - Essa surpresa se deve a deputados que não tinham revelado sua posição?
Marco
Feliciano - Exato. Foram deputados que nem acreditávamos que estavam em dúvida,
acreditávamos que estavam do lado do governo. De repente, estava no painelzinho
o nome deles, votando a favor. Foi muito legal.
A
princípio tivemos um pouco de receio porque alguns partidos tinham declarado
que iriam liberar o pessoal dentro da comissão (para votar como quisessem) e na
hora desistiram, votaram contra o impeachment. Subiu aquele friozinho na boca
do estômago, né? Mas de repente ficou melhor do que o esperado, exatamente por
essa atitude do partido de ter traído os próprios deputados. Isso criou uma
revolta e os deputados votaram pelo Brasil.
BBC
Brasil - Depois desse resultado, acredita que o impeachment vai passar na
Câmara?
Marco
Feliciano - O trabalho é árduo, porque o governo está jogando pesado. Tem muito
deputado que deixou de decidir, porque sabe que pode ter algum benefício com o
governo. Nosso sentimento é que o deputado que tiver juízo não vai querer dar
um tiro no pé, a exemplo do impeachment do Collor. Dos deputados que votaram
contra (o afastamento do presidente em 1992), só temos dois no Congresso.
O
restante não se elegeu nem para síndico de prédio, com exceção de um, o
(senador Ronaldo) Caiado (DEM-GO), que está no Senado. Todos que votaram contra
o impeachment foram punidos pela população. Neste momento, o Parlamento tem que
ouvir o grito do povo.
BBC
Brasil - O presidente da comissão começou sua fala na segunda-feira citando uma
oração de São Francisco. Houve críticas de que isso não seria adequado porque o
Estado é laico. O que acha dessas ponderações?
Marco
Feliciano - É um mantra recitado pela esquerda, de que o Estado é laico. É de
fato e graças a Deus por o Estado ser laico. O Estado laico protege o seu
direito de fé e o meu. Posso fazer o que quiser em nome da minha fé e ninguém
pode tolher meu direito. O preâmbulo da nossa Constituição Federal começa com
Deus. O Parlamento não começa a sessão sem o presidente ficar de pé e dizer:
“sob a proteção de Deus e em nome do povo brasileiro”. Se você olhar atrás do
presidente da nossa Casa, vai ver uma imagem de Cristo pendurada.
Os
constituintes de 1988 que disseram que o Estado era laico permitiram que
houvesse a fé cristã. Nosso país é laico, mas temos 90% de pessoas cristãs,
então esse mantra recitado pela esquerda entra na cabeça e às vezes acaba quase
convencendo, sabia? É a mesma coisa quando dizem que todo mundo prega o ódio.
Na verdade, não é ódio. É indignação. Quando você fala um pouco mais áspero,
eles chamam de fascista. Não é fascismo, é indignação.
BBC
Brasil - Indignação contra o governo?
Marco
Feliciano - Eles estão com metade do povo deles presa. A presidenta nunca soube
de nada, os ministros do Lula caíram todos por corrupção e ninguém viu nada.
Parece até magia negra, viu?
O
Estado é laico, mas não é laicista. Laicismo é ateísmo. Se vivêssemos num
Estado ateu, se você falasse o nome de Deus poderia ser apedrejada na rua. O
Estado é laico, graças a Deus. Só Deus para ajudar a gente.
BBC
Brasil - O senhor vê um elemento divino nessa questão do impeachment?
Marco
Feliciano - Agora vai falar o pastor e não o deputado. Acredito que há um mundo
espiritual que de vez em quando entra em contato com o mundo natural. A presidenta
não disse um dia que se faz o diabo para se manter na política? Pois bem. Se
ela pode usar o diabo para se manter na política, só tem uma força que
contrapõe o diabo: é Deus. Então, a gente ora. Temos um grupo de pastores, de
deputados cristãos, tem a frente católica que faz a missa. E a nossa oração é
para que Deus ilumine nosso país. Creio que Deus resolveu olhar para o nosso
país.
Depois
que esse governo tocou nas nossas crianças com a ideologia de gênero implantada
nas escolas, depois que começou a pregar um Estado marxista através das
universidades... Para o comunista o Estado tem que ser Deus. Só que esse
pessoal esbarra numa força invisível. Quando o fiel tem um problema, não vai
bater na porta do governo, vai para uma igreja e sai fazendo uma oração. E,
quando faz uma oração, não me pergunte como, as coisas melhoram.
BBC
Brasil - Quando você diz que “Deus resolveu olhar para o país”, fala
especificamente da marcha do processo de impeachment?
Marco
Feliciano - Três anos atrás a presidente Dilma tinha 75% de aprovação. O país
era a 6ª maior economia do mundo. Quem olhava para o Brasil, o via como a
esperança do mundo.
Em
2013, fui perseguido por movimentos sociais que são mantidos pelo PT, PCdoB e
PSOL. Então, tenho uma visão (sobre isso). Fiquei 90 dias em todos os jornais
por causa de uma comissãozinha (ele foi presidente da Comissão de Direitos
Humanos e Minorias) que não prestava para nada.
Um
homem que nunca fez mal a ninguém, sendo perseguido em avião! Enquanto (os
movimentos) estavam tocando no político, estava tudo bem. Mas quando a mídia
tendenciosa, os intelectuais e os políticos deram asa para esses movimentos,
que começaram a entrar nas igrejas, tirar roupa, dar beijo na boca... Eles
pararam de tocar no político e começaram a tocar naquilo que há de mais puro: a
fé do ser humano. Nesse momento, cometeram um erro terrível.
BBC
Brasil - Quais acha que foram as consequências?
Marco
Feliciano - Começou a descambar. A perseguição comigo começou em março e foi
até maio. Terminou quando eu disse que sairia da comissão se o José Genoíno e o
João Paulo Cunha fossem presos, se deixassem a Comissão de Constituição e
Justiça. Eles estavam condenados e foram presos. Depois pararam de me
perseguir. O William Boner falou no Jornal Nacional e o Brasil virou do meu
lado, porque falei uma verdade. No dia 5 de junho houve a primeira manifestação
em Brasília. Quem fez? Nós, evangélicos. Foi o evento (por) toda a perseguição
que eu sofria. Uma semana depois, começaram as manifestações de rua.
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| Jos Cruz I Agencia Brasil |
A
primeira grande manifestação do Brasil não foi dos movimentos sociais, fomos
nós, evangélicos, (que fizemos). Duas semanas depois começou o Movimento Passe
Livre e não parou mais. De lá para cá, olha o que aconteceu com o governo.
A
fé foi tão forte que olha quem Deus usa: um elemento surpresa, um juiz do
Paraná. Que vai procurar um negócio de Lava Jato e de repente puxa um fio. Já
viu juiz se dobrar em cima de ações? Mas esse menino resolveu ler e, no meio da
leitura, saltou um nome, que era o da Petrobras.
Foram
forças que estão fora do controle do homem. O nosso governo aparelhou tudo, é
só você olhar os votos do Supremo Tribunal Federal. Mas não conseguiu aparelhar
um juizinho lá do Paraná. E hoje virou uma personalidade tão forte que o
brasileiro encontrou nele uma esperança de honestidade.
BBC
Brasil - Qual é o papel das igrejas no movimento pró-impeachment?
Marco
Feliciano - As igrejas começaram a se mover. Elas eram apolíticas, né? Até que
começaram a perceber que a política podia (se) movimentar atrapalhando a fé
delas. Por exemplo, o PL 122, a lei que criminalizava a homofobia. Havia artigos
que proibiam você de citar qualquer texto que fosse contrário ao
homossexualismo. Como ficaria a Bíblia? Um padre ou pastor que falasse qualquer
coisa poderia ser preso. As igrejas começaram a acordar.
Todavia,
não é unanimidade. Temos dentro do movimento os evangélicos progressistas. É
parecido com aquele grupo da Igreja Católica que ajudou a fundar o PT, a
Teologia da Libertação. Eles são contra (o impeachment). Mas a grande maioria
do movimento neopentecostal aderiu ao movimento. Você vê, o PRB (que vai votar
a favor do impeachment) é da Igreja Universal. Era da situação, tinha
ministério. Deixaram tudo e vieram para cá.
BBC
Brasil - Muitas reportagens mostraram que boa parte dos deputados integrantes
da comissão de impeachment são réus em processos e receberam doações de
empresas da Lava Jato. O senhor recebeu doação da OAS e teve a prestação de
contas reprovada. Como responde a isso?
Marco
Feliciano - Nas minhas prestações de contas, vencemos tudo, graças a Deus.
Tenho uma pendência na Justiça que é por culpa do PT. Em 2013, o PT, junto com
o PSOL, me processou por racismo, homofobia, danos morais. Me acusaram de ter
pastores dentro do meu gabinete, como se fosse crime.
Meu
reduto é evangélico. Quem pode ser meu assessor senão aqueles que são evangélicos?
(Mas não tenho) nenhum processo por improbidade, desvio. Sobre as empresas que
estavam na Lava Jato: meu partido parece que recebeu alguma coisa da OAS, né?
Na minha conta, acho que mandaram R$ 6 mil. Isso entrou na prestação de contas
de maneira legal.
BBC
Brasil - Após o processo de impeachment, o que consideraria ideal para o futuro
do país? Um governo Temer, novas eleições?
Marco
Feliciano - O que almejo nesse momento, meu sonho primário, é ver o PT perder o
governo. Esse é o meu sonho. O que vier daí, qualquer coisa, é lucro. Não é que
eu queira o Temer, só que qualquer coisa é melhor do que o PT.
Alguém
perguntou para mim: o que você acha do Cunha? O Cunha, todo mundo chama de
malvado, né? Se ele é malvado, para mim é meu malvado favorito. Porque foi ele
colocou o impeachment para andar. Não importa o porquê, o motivo, o que importa
é que ele teve coragem, peitou esse governo. Na política, você tem que ter um
lado. Não pode ficar em cima do muro. Tenho dois lados na política: o ruim e o
menos ruim. Neste momento, estou com o menos ruim.
BBC
Brasil - Você vai se candidatar à prefeitura de São Paulo pelo PSC?
Marco
Feliciano - Está tudo certo ainda. Lançamos meu nome e eu sai até bem pontuado
na primeira pesquisa. Estou dependendo de um sinal verde do partido. Por mim,
já estou dentro. Vamos para briga.
Fonte:
bbc


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