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A dor que virou sentença: Damaris foi estuprada, presa injustamente e morta pelo descaso

Seis anos de prisão injusta, um câncer ignorado e apenas 74 dias de liberdade e sua morte — o retrato brutal de um sistema que prende, adoece e mata

Foto: Reprodução/Redes Sociais / Porto Alegre 24 horas


Por Fátima Miranda— Colunista - BVO


No Rio Grande do Sul, a jovem de 26 anos Damaris Vitória Kremer da Rosa passou quase seis anos presa preventivamente, acusada de homicídio em novembro de 2018 — o corpo da vítima foi encontrado queimado, e ela foi denunciada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul como mandante da execução. Need To Know 

Damaris relatou que havia sido estuprada pelo mesmo homem que depois foi assassinado pelo namorado dela — e ainda assim foi mantida na prisão com base em indícios frágeis. Terra

Durante a detenção ela começou a apresentar sangramentos vaginais e dores abdominais, foi diagnosticada com câncer do colo do útero — dentro da prisão, onde seus pedidos de tratamento ou liberdade condicional foram sucessivamente negados. Brasil 247 

Foi apenas em março de 2025 que teve a prisão convertida para domiciliar com tornozeleira, mesmo assim com graves restrições para tratamento oncológico. A TARDE

Em agosto de 2025, Damaris finalmente foi absolvida — mas a liberdade veio tarde demais: morreu em 26 de outubro de 2025, apenas 74 dias após a absolvição, vítima das complicações da doença que o sistema negligenciou. Terra 

Este caso escancara a falência do sistema prisional quando se trata de mulheres, saúde e justiça: prisão provocada por indício frágil, demora absurda na apuração, negligência médica sistemática, desrespeito aos direitos humanos básicos. Estudos mostram que mulheres encarceradas no Brasil têm saúde mais precária, com taxas de hipertensão, câncer e doenças cardiovasculares entre duas e quatro vezes maiores do que mulheres livres. Revista Pesquisa Fapesp

No caso específico do câncer de colo do útero, a negligência entre as detentas é ainda maior: pesquisa canadense aponta que mulheres encarceradas têm mais de duas vezes a probabilidade de estarem atrasadas no rastreamento do câncer cervical em comparação à população geral. JAMA Network

Ou seja: o cárcere, longe de ressocializar, se transforma em sinônimo de abandono da dignidade e da vida. Damaris foi presa injustamente duas vezes — primeiro pelo sistema penal que a manteve sem provas suficientes, depois pelo sistema de saúde prisional que ignorou seu sofrimento. A prisão preventiva prolongada sem julgamento efetivo, a negativa de exame completo, a recusa em conceder liberdade para tratamento: são todas peças do mesmo mecanismo que viola a Constituição, a Convenção Americana de Direitos Humanos, e o princípio da dignidade da pessoa humana. É preciso perguntar: quantas Damaris mais teremos? Quantas mulheres presas injustamente, diagnosticadas com doenças graves na prisão, cujos pedidos de cuidado são recusados? A resposta exige política, responsabilidade e reforma estrutural — não apenas nesta coluna, mas em todo o sistema penal e de saúde do Brasil.

Casos Semelhantes (exemplos de abandono prisional e saúde negligenciada) Pesquisa de 2024 revela que uma parte significativa das mulheres presas “nunca é visitada pela família” e enfrenta abandono emocional e médico — “duplamente punidas: pelo crime e pelo cárcere”. Revista Pesquisa Fapesp

Relatório do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) mostra que pessoas expostas ao ambiente prisional têm mortalidade significativamente maior que a população geral, com causas evitáveis como doenças crônicas e negligência de saúde. CNJ

Estudo específico sobre mulheres encarceradas vítimas de câncer de colo do útero conclui que a falta de rastreamento e cuidado adequado dentro do cárcere eleva o risco de incidência e mortalidade por essa doença. Repositório PUC Goiás

Este não é um artigo isolado — é uma denúncia em letra capitular. A prisão injusta, o estupro negligenciado, o câncer não tratado, a absolvição tardia: tudo se combina na história de Damaris. E tudo isso só não vira estatística porque ainda há quem grave nomes, quem conte histórias, quem levante a voz.

Que o caso de Damaris sirva de marco: para que não apenas se pergunte quantas mais, mas para que se aja — que se revisem prisões preventivas, que se assegure atendimento médico digno dentro das prisões, que os direitos humanos não sejam cláusula opcional no cárcere. Porque prisão preventiva não é sentença de morte.

Este conteúdo segue nosso Manifesto Editorial .
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