Presidente condena uso de bloqueios econômicos como arma política e pede papel mais forte da ONU na mediação de conflitos
| Marcelo Camargo/Agência Brasil |
Em declarações recentes, Lula criticou abertamente as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos à Venezuela, classificando-as como fator de agravamento da crise social e econômica no país vizinho. Para ele, bloqueios desse tipo acabam punindo, sobretudo, a população mais pobre, ao restringir acesso a alimentos, remédios e bens essenciais, sem necessariamente derrubar governos ou promover democracia. O presidente argumenta que não pode haver “um país que se arroga o direito de ser polícia do mundo”, impondo punições unilaterais a outros.
Lula associou o caso venezuelano a outros exemplos em que sanções amplas produziram recessão, desabastecimento e migrações em massa, como Irã e Cuba. Segundo ele, o uso de medidas econômicas de força como instrumento de política externa costuma desorganizar economias inteiras e desestruturar serviços públicos, com efeitos que duram anos. Ao mesmo tempo, elites políticas e econômicas frequentemente encontram formas de se proteger, o que torna o custo humano desproporcional em relação aos objetivos declarados.
O presidente defende que disputas geopolíticas e conflitos internos devem ser mediadas em instâncias multilaterais, com protagonismo da ONU e apoio de organismos regionais, em vez de decisões unilaterais de potências. Na visão de Lula, a construção de soluções passa por diálogo, eleições com regras claras, observação internacional e mecanismos de garantia de direitos, e não por isolamento absoluto. Ele argumenta que países vizinhos, como o Brasil, têm responsabilidade especial em facilitar negociações e caminhos de saída pacífica.
Em relação específica à Venezuela, Lula tem defendido o alívio gradual de sanções em troca de compromissos verificáveis de abertura política e respeito a processos eleitorais. A lógica é usar incentivos econômicos positivos, e não apenas punições, para estimular mudanças. Ao mesmo tempo, ele evita defender publicamente qualquer dos lados internos, tentando se colocar como mediador que dialoga tanto com o governo quanto com setores da oposição, ainda que essa postura seja contestada por críticos.
O discurso pró-multilateralismo de Lula também se conecta ao esforço do Brasil para reforçar sua posição em fóruns como BRICS, G20 e ONU. Ao criticar a lógica de “polícia do mundo”, o presidente busca aliados que questionem a centralidade exclusiva dos EUA e de alguns países europeus na definição de sanções e intervenções. A aposta é que um sistema internacional mais equilibrado diminua o uso de bloqueios econômicos amplos e abra espaço para soluções diplomáticas mais duradouras.
Críticos, entretanto, argumentam que o governo brasileiro corre o risco de minimizar violações de direitos humanos e fraudes eleitorais em países aliados ao relativizar sanções. Organizações de direitos humanos alertam que qualquer discussão sobre relaxamento de bloqueios precisa estar condicionada a avanços concretos em liberdade política, liberdade de imprensa e combate à repressão. Lula responde que não se trata de dar “cheque em branco” a regimes, e sim de buscar soluções que não recaiam sobre populações vulneráveis.
A postura brasileira em relação às sanções e ao multilateralismo será testada em debates futuros na ONU e em fóruns regionais, especialmente se novos pacotes de medidas forem propostos contra países latino-americanos. O governo aposta em construir coalizões que defendam princípios de não intervenção e respeito à soberania, sem abandonar a defesa de direitos humanos e da democracia. Essa equação, no entanto, é delicada e tende a ser alvo de críticas tanto da direita quanto de setores mais à esquerda.
Na prática, a crítica às sanções e a defesa do multilateralismo se tornam parte importante da narrativa internacional de Lula, que busca se apresentar como voz do Sul Global em um mundo polarizado. Ao colocar a questão venezuelana nesse contexto mais amplo, o presidente tenta reforçar a imagem do Brasil como ator que defende diálogo, soberania e redução de danos humanitários, em oposição a estratégias baseadas em punições econômicas de largo alcance.
FONTES: Agência Brasil; discursos oficiais da Presidência da República; análises de política externa em veículos nacionais e internacionais sobre sanções e multilateralismo.
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