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A política da metralhadora: o massacre, a lei e o Brasil que mata em nome da “segurança”

O massacre do Rio de Janeiro expõe a falência de uma segurança pública que mata em nome da lei e destrói a própria ideia de justiça no Brasil.

IMAGEM: WEB/EDITADA

Por Fátima Miranda— Colunista - BVO


O que vimos no Rio de Janeiro nas últimas semanas é o retrato mais cruel da falência de um Estado que já não sabe distinguir justiça de vingança. O governador Cláudio Castro transformou a segurança pública em um campo de guerra, e o resultado foi o de sempre: corpos espalhados, famílias dilaceradas e nenhuma mudança real na estrutura que alimenta a criminalidade.

A operação que deixou dezenas de mortos foi tratada pelo governo como “vitória”, quando, na verdade, simboliza derrota moral e institucional. Um Estado que celebra o número de cadáveres como indicador de eficiência perdeu completamente o rumo. Governar não é metralhar. Governar é prevenir, investigar, reconstruir — e não promover carnificina com aval oficial.

Não há como justificar a forma brutal com que as forças de segurança agiram nas comunidades do Rio. É verdade que o crime existe, que há traficantes, milicianos e uma rede de violência que desafia a lei. Mas nada, absolutamente nada, autoriza o Estado a se comportar como criminoso. A lei é o limite que nos separa da barbárie — e o que se viu foi justamente a sua anulação.

Nenhum país civilizado combate o crime inutilizando a lei. E é disso que se trata: não se pode combater o crime cometendo crime. Mesmo o culpado, o criminoso confesso, tem direito à vida, à defesa e ao julgamento. Quando o Estado executa sumariamente, sem devido processo, ele se torna cúmplice da barbárie que diz combater.

As imagens vindas das comunidades cariocas chocam o mundo. Moradores descrevem um cenário de terror, com helicópteros atirando, casas invadidas, corpos sendo removidos sem perícia adequada. Há relatos de adulteração de cenas e intimidação de testemunhas. Não é combate ao crime — é a negação da justiça.

E não se trata apenas do Rio de Janeiro. O que ocorre nas favelas cariocas é o espelho de uma política de segurança pública que se repete em Salvador, em São Paulo e em diversas capitais violentas do país. Chacinas se tornaram rotina; bairros inteiros vivem sob o domínio do medo, e a letalidade policial cresce sem freio. Nas grandes capitais, operações nas periferias também resultam em mortes em série, com investigações superficiais e nenhuma responsabilização real.

Essas tragédias têm algo em comum: a lógica da força como resposta automática. O discurso político da “mão dura” seduz, mas é vazio. Enquanto se finge combater o crime com fuzis e blindados, abandonam-se escolas, postos de saúde e oportunidades de emprego — as verdadeiras armas contra a criminalidade. O resultado é previsível: quanto mais tiros, mais mortes; quanto mais mortes, mais revolta; e quanto mais revolta, mais combustível para o ciclo da violência.

Não estou aqui para transformar criminosos em vítimas. Quem escolhe o crime deve responder por seus atos. Mas a punição deve ser conduzida pela lei, não pela vingança institucionalizada. E quando um governador autoriza uma operação que fere princípios constitucionais, que ignora direitos básicos e transforma o morro em palco de execução, ele se torna parte do problema, não da solução.

A violência não será resolvida com mais violência. Ela será superada quando houver inteligência policial, planejamento social, investigação científica e respeito aos direitos humanos. Quando o Estado estiver presente com oportunidades, não apenas com caveirões. Quando os policiais forem valorizados e treinados para proteger, não para matar.

A omissão de autoridades e o silêncio do Ministério Público diante dessa carnificina reforçam o descrédito nas instituições. A população se vê sem saída: de um lado, o crime armado; do outro, o Estado armado. No meio, a vida comum, frágil e desprotegida.

É urgente repensar o conceito de segurança pública no Brasil. Segurança não é estatística de mortes, não é quantidade de operações nem número de prisões. Segurança é paz social, é o direito de viver sem medo — seja em Copacabana, em Cajazeiras, em Heliópolis ou em qualquer esquina deste país desigual.

Cláudio Castro será lembrado não pela segurança que prometeu, mas pela tragédia que permitiu. E o Rio de Janeiro, cansado de sangue, continua clamando por justiça e humanidade.

Se o Estado brasileiro continuar a enxergar a favela como inimiga e o pobre como alvo, não haverá helicóptero, batalhão ou blindado capaz de conter o que virá depois: o colapso definitivo da própria ideia de civilização.

Bom será se o próprio Estado der o primeiro exemplo — mostrando que cumprir a lei é a regra áurea da ordem em sociedade.




Por Fátima Miranda— Colunista - Blog Verdades Ocultas

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