Presidente alerta para risco de perda de mercados externos e critica bancada ruralista por apostar no curto prazo
Ricardo Stuckert / PR - 03.12.2025
Lula fez duras críticas à decisão do Congresso de derrubar vetos presidenciais em matéria ambiental, afirmando que havia vetado trechos para “proteger o agronegócio” das exigências internacionais cada vez mais rígidas. Segundo o presidente, fragilizar leis de proteção ambiental coloca em risco a capacidade do Brasil de vender soja, carne, algodão e outros produtos para mercados como China e União Europeia. Ele advertiu que, quando esses compradores reagirem, os mesmos parlamentares irão pressionar o governo por soluções.
O presidente ressaltou que grandes importadores já condicionam acordos e compras à comprovação de combate ao desmatamento ilegal, respeito a áreas de preservação e rastreabilidade de cadeias produtivas. Ao derrubar vetos que buscavam fechar brechas em licenciamento, proteção de biomas e fiscalização, o Congresso, na leitura de Lula, envia sinal errado ao mundo. O discurso foi entendido como recado direto à bancada ruralista.
Lula afirmou que não é “inimigo do agro”, lembrando que seu governo investe em infraestrutura logística, crédito e inovação tecnológica para o campo. Disse, porém, que o setor precisa compreender que não há futuro para quem ignora clima e sustentabilidade. O presidente insistiu que os vetos tinham justamente a intenção de evitar que produtores brasileiros fossem barrados em portos e mercados estratégicos.
Parlamentares ligados ao agronegócio reagiram dizendo que os vetos eram excessivos e burocráticos, capazes de travar obras, licenças e atividades produtivas. Alegam que o país já possui uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo e que o problema está na falta de estrutura para implementação, não na letra da lei. Acusam o governo de usar o discurso ambiental como instrumento de controle ideológico sobre o setor.
Especialistas em comércio exterior e meio ambiente tendem a se alinhar ao alerta de Lula, apontando que cláusulas verdes em acordos comerciais estão se tornando padrão. Lembram, por exemplo, as exigências da União Europeia em relação a desmatamento embutido em produtos agrícolas e as discussões em curso com a China sobre cadeias sustentáveis. Nessa lógica, fragilizar normas internas pode funcionar como tiro no pé econômico.
Organizações socioambientais celebraram o tom firme do presidente, mas criticaram a dificuldade do governo em segurar sua base no Congresso em votações-chave. Para esses grupos, a derrubada dos vetos revela força da bancada ruralista e necessidade de maior mobilização social em defesa de florestas, rios e comunidades tradicionais. Cobram ações concretas para reverter retrocessos.
O episódio também tem impacto na imagem internacional do Brasil, que vinha sendo reconstruída com base em compromissos climáticos mais robustos e queda no desmatamento. Parceiros estrangeiros monitoram de perto o que é aprovado em leis e orçamentos, não apenas discursos em conferências. Se perceberem recuos, podem impor barreiras ou redirecionar investimentos.
Ao vincular diretamente vetos ambientais à defesa do agronegócio, Lula tenta deslocar o debate da falsa dicotomia “meio ambiente versus produção” para a lógica de “ambientalismo como seguro econômico”. Resta saber se essa visão ganhará força suficiente no Congresso para segurar novos retrocessos legislativos.
Fontes: Revista NE, Correio Braziliense, Agência Brasil, Itamaraty
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