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Como sanções dos EUA empurraram a economia venezuelana para o abismo


Embargo ao petróleo e ao sistema financeiro aprofundou recessão, derrubou o PIB em 75% e acelerou a maior crise migratória da região

Imagem: Jim Watson/AFP

Análises recentes indicam que as sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos tiveram papel decisivo no aprofundamento da crise venezuelana, contribuindo para uma queda acumulada de cerca de 75% do PIB entre 2013 e 2022. Embora a economia já apresentasse fragilidades graves antes do endurecimento do embargo, o bloqueio financeiro e comercial ampliou dramaticamente a recessão. O resultado foi desabastecimento, hiperinflação prolongada e deterioração aguda das condições de vida, com impacto direto em serviços públicos essenciais.

O embargo restringiu severamente a capacidade da Venezuela de financiar e modernizar sua indústria petroleira, principal fonte de divisas do país. Medidas dos EUA impediram o refinanciamento da dívida, dificultaram transações monetárias no sistema financeiro internacional e congelaram ativos venezuelanos no exterior, incluindo receitas de petróleo em bancos estrangeiros. Com menos acesso a crédito e a insumos, a produção de petróleo despencou, reduzindo recursos disponíveis para importação de alimentos, medicamentos e bens industriais, e comprimindo ainda mais o orçamento estatal.

Além das sanções diretas, Washington passou a aplicar sanções secundárias contra empresas de terceiros países que mantivessem negócios com a Venezuela em setores como petróleo, ouro e minérios. Isso aumentou o isolamento comercial de Caracas, afastando potenciais parceiros temerosos de represálias. O efeito dominó limitou alternativas de financiamento e agravou o estrangulamento de dólares necessário para sustentar a economia, especialmente em um país altamente dependente de importações para abastecer o mercado interno.

Economistas lembram que a própria estrutura rentista da economia venezuelana já a tornava vulnerável a choques externos. Em 2014, o barril de petróleo sofreu queda de quase 70%, derrubando receitas de exportação em um contexto em que mais de 95% delas vêm desse recurso. Essa combinação de choque de preços, má gestão interna, controles cambiais rígidos e sanções internacionais criou uma espiral de queda de produção, perda de reservas e incapacidade de manter programas sociais e subsídios que sustentavam o consumo.

O aprofundamento da crise se refletiu diretamente em aumento da pobreza, insegurança alimentar e colapso de serviços públicos, incluindo saúde e educação. Hospitais passaram a relatar falta de insumos básicos, medicamentos e profissionais, enquanto escolas perderam alunos e funcionários por falta de condições mínimas. Estudos projetam que o endurecimento das sanções de “pressão máxima” poderia ter provocado, sozinho, a emigração de até 1 milhão de venezuelanos adicionais em cinco anos, em comparação a um cenário sem embargo.

Especialistas como o economista venezuelano Francisco Rodríguez, crítico do chavismo, enfatizam que a recessão antes de 2017 está ligada principalmente a erros de política interna e distorções estruturais. No entanto, ele ressalta que as sanções atuaram como “acelerador” da crise, impedindo qualquer tentativa de estabilização moderada. A leitura predominante em trabalhos recentes é que o colapso atual resulta da soma de má gestão doméstica e pressão externa intensa, com populações vulneráveis arcando com a maior parte do custo.

Apesar do impacto econômico massivo, as sanções não conseguiram derrubar o governo chavista, que se adaptou com ajuda de aliados como Rússia, China e Irã, além de mecanismos paralelos de comércio e dolarização informal da economia. Para críticos da estratégia, isso evidencia que embargos amplos tendem a punir mais a população comum do que elites dirigentes, que encontram formas de preservar poder político e privilégios. O endurecimento anunciado para o novo ciclo de governo Trump reacende o debate sobre custo humano dessas medidas.

A experiência venezuelana é cada vez mais citada em debates sobre sanções a outros países, como Irã e Cuba, servindo de alerta sobre efeitos colaterais prolongados. Ela mostra como bloqueios extensos podem desestruturar economias dependentes de poucas commodities, estimular migrações em massa e reconfigurar alianças internacionais sem necessariamente produzir transições políticas rápidas. Para formuladores de política externa, o caso é exemplo de que instrumentos econômicos de pressão têm efeitos complexos e, muitas vezes, ambivalentes, exigindo desenho mais cirúrgico e responsável.

FONTES: Agência Brasil; BBC; relatórios de organismos internacionais; artigos de Francisco Rodríguez e outros economistas sobre sanções e crise na Venezuela.[agenciabrasil.ebc.com]​




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