Bloqueio financeiro corta entrada de dólares, desvaloriza moeda local, acelera inflação e atinge diretamente a população
As sanções dos Estados Unidos contra o Irã operam, antes de tudo, como um estrangulamento financeiro que dificulta ou impede a entrada de dólares na economia iraniana. Ao bloquear ativos no exterior, restringir o acesso ao sistema financeiro internacional e punir bancos que operem com Teerã, Washington limita severamente a capacidade do país de receber pagamentos por exportações e de fazer transações rotineiras. Essa escassez de divisas funciona como nó central de todo o resto da crise econômica.
O pacote de medidas inclui o congelamento de bens iranianos em bancos estrangeiros, o bloqueio quase total do comércio direto entre os dois países e sanções a empresas de qualquer nação que invistam valores acima de determinados limites no setor energético iraniano. Na prática, isso transforma o Irã em parceiro de alto risco, afastando investidores e encarecendo qualquer linha de crédito ainda disponível. Para manter operações básicas, o país precisa recorrer a arranjos paralelos, menos eficientes e mais caros.
Com menos dólares disponíveis, a moeda local, o rial, sofre forte desvalorização no câmbio, o que encarece de imediato importações de alimentos, remédios, tecnologia e insumos industriais. A alta de preços em moeda local se espalha por toda a economia, elevando a inflação e corroendo rapidamente o poder de compra dos salários. Mesmo famílias que não têm relação direta com o comércio exterior sentem o impacto no supermercado, na farmácia e nas contas do dia a dia, alimentando sensação permanente de insegurança econômica.
A indústria petroleira, principal fonte de renda externa do Irã, é especialmente afetada. Relatórios da ONU apontam correlação direta entre as sanções e a perda de desempenho econômico, em particular devido às restrições comerciais e financeiras sobre o setor energético, responsável pela maior parcela das receitas nacionais. Sem acesso fácil a equipamentos, peças, tecnologia e linhas de financiamento de longo prazo, o país vê sua capacidade de produzir, refinar e exportar petróleo e gás se deteriorar ao longo do tempo.
O bloqueio iniciado logo após a Revolução de 1979 foi sendo agravado em sucessivas rodadas, muitas vezes associado a disputas sobre o programa nuclear iraniano e à política regional de Teerã. Cada endurecimento adiciona novas camadas de dificuldade operacional: bancos estrangeiros se afastam, empresas recuam de contratos e até operações humanitárias passam a enfrentar burocracia extra. Na soma, o ambiente de negócios se torna cronicamente instável, espantando iniciativas privadas que poderiam diversificar a economia.
Para lidar com a escassez de divisas e a pressão inflacionária, o governo iraniano recorre a controles cambiais, subsídios e, em alguns momentos, expansão monetária para financiar gastos internos. Essas respostas, quando mal calibradas, acabam agravando distorções: surgem mercados paralelos de câmbio, oportunidades para arbitragem ilegal e perda de confiança da população na própria moeda. O resultado é um círculo vicioso em que as sanções externas e os erros de política interna se retroalimentam.
Do ponto de vista social, o impacto aparece em queda do poder aquisitivo, aumento da pobreza, dificuldade de importar medicamentos de ponta e deterioração de serviços públicos. A relatora especial da ONU sobre sanções e direitos humanos destaca que a combinação de bloqueio energético e restrições financeiras atinge diretamente direitos básicos, como acesso à saúde e alimentação adequada. Mesmo que existam exceções humanitárias formais, na prática muitos fornecedores evitam o país por medo de punições, reduzindo a oferta real.
A experiência iraniana ajuda a entender por que sanções amplas se tornaram tema central de debate em política internacional. Ao mostrar como o bloqueio a um setor vital e ao sistema financeiro pode paralisar investimentos, provocar inflação crônica e empobrecer a população, o caso levanta questões éticas e estratégicas sobre o uso desse tipo de ferramenta. Ao mesmo tempo, evidencia como países alvo buscam alternativas — de acordos com outras potências a sistemas de pagamento paralelos — para mitigar danos e preservar algum grau de autonomia econômica.
FONTES: Agência Brasil; O Povo Online; relatório da ONU sobre impactos das sanções ao Irã; entrevistas de economistas e especialistas em comércio internacional.[agenciabrasil.ebc.com]
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