Presidente ameaça sobretaxar exportações de até 25% e transforma disputa territorial em teste de força com aliados da OTAN
| Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, com Trump após terem chegado a um acordo comercial em agosto do ano passado — Foto: Tierney L. Cross/The New York Times |
Donald Trump elevou o tom ao anunciar que pretende tarifar produtos de países europeus que se opõem ao plano dos Estados Unidos de comprar a Groenlândia, território autônomo sob soberania da Dinamarca. Em publicações em sua plataforma e em entrevistas, o presidente afirmou que tarifas de 10% poderão ser aplicadas já a partir de fevereiro, subindo para 25% caso não haja avanço nas discussões. A estratégia transforma um projeto territorial improvável em instrumento de pressão econômica direta sobre aliados tradicionais.
A ameaça se dirige a Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Países Baixos e Finlândia, todos membros da OTAN com laços comerciais profundos com os EUA. Ao vincular a tarifa à posição desses países sobre a Groenlândia, Trump rompe com a lógica usual de disputas comerciais, em que tarifas costumam estar associadas a temas como déficit, subsídios ou barreiras técnicas. Aqui, o recado é explícito: ou aceitam negociar o território ou enfrentarão custos elevados para vender aos consumidores norte-americanos.
Por trás da pressão está a ambição de transformar a Groenlândia em peça central de uma arquitetura de defesa batizada por Trump de “Domo de Ouro”, um escudo antimísseis voltado a proteger o território norte‑americano em cenário de rivalidade com Rússia e China. A ilha ocupa posição estratégica no Ártico, entre as duas potências, e já abriga uma base militar dos EUA. A compra daria a Washington controle direto sobre rotas e instalações-chave, intensificando a presença americana numa região onde a corrida geopolítica e energética se acelera.
Governos europeus reagiram com irritação, reiterando que a Groenlândia é parte do Reino da Dinamarca e que qualquer questão de segurança deve ser tratada dentro do arcabouço da OTAN, não por meio de chantagem comercial. Parlamentares em Bruxelas pedem que a União Europeia responda de forma unificada, inclusive cogitando contestar as tarifas na Organização Mundial do Comércio. Há preocupação de que ceder agora abra precedente para que outros temas sensíveis sejam tratados da mesma forma no futuro.
Especialistas em comércio internacional alertam para o risco de uma escalada tarifária que prejudique cadeias produtivas compartilhadas, especialmente nos setores automotivo, de máquinas e de produtos químicos. Empresas dos dois lados do Atlântico podem enfrentar aumento de custos, necessidade de redirecionar exportações e incerteza regulatória, o que desestimula investimentos. Em um contexto de desaceleração global, a transformação de uma disputa territorial em guerra comercial é vista como fator adicional de instabilidade.
No campo militar, a retórica de Trump sobre a Groenlândia reforça a tendência de militarização do Ártico, já em curso com exercícios conjuntos de países da região e maior presença naval de potências. Climatologistas e ambientalistas lembram que se trata de um dos ecossistemas mais frágeis do planeta, onde acidentes ou conflitos podem ter consequências devastadoras para o clima global. A combinação de disputa geoestratégica e interesses em recursos naturais, como minerais e hidrocarbonetos, torna a equação ainda mais explosiva.
Politicamente, o episódio é interpretado como mais um sinal de que o presidente está disposto a usar tarifas como arma de política externa para além de debates estritamente econômicos. Ao testar a disposição da Europa em resistir à pressão, Trump também mede o grau de coesão interna da União Europeia e da OTAN diante de uma agenda americana cada vez mais assertiva. Países mais dependentes do mercado dos EUA podem pressionar por uma saída negociada, enquanto outros defendem postura firme em defesa do direito internacional.
A maneira como a Europa responderá a esse ultimato terá implicações duradouras sobre a ordem internacional. Se o bloco conseguir articular uma reação coesa, poderá fortalecer sua imagem como ator autônomo capaz de resistir a medidas unilaterais de Washington. Se, ao contrário, prevalecer a fragmentação, a Casa Branca pode se sentir encorajada a repetir a tática em outras áreas sensíveis, consolidando um modelo de relações transatlânticas mais assimétrico e conflituoso.
FONTES: G1; Agência Brasil; UOL News; veículos europeus especializados em política externa e comércio internacional.[youtube][g1.globo]
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